Blog Ricardo Hage.com
Artes Visuais, Interdisciplinaridade e Ensino
Sexta-feira, Outubro 26, 2007
Hoje é dia 26 e eu estou perdendo o lancamento do Mac OS X 10.5, conhecido também como Leopard.
A apple falou que o sistema estaria disponível no dia do lançamento aqui no Brasil também... Será?
Vou dar uma olhada no site da FNAC...
Lisette Lagnado vai participar do encontro do Fórum Permanente Museus de Arte: Entre o Público e o Privado.
O tema do encontro será a Documenta 12 em debate e contará com a presença de Roger M. Buergel, diretor artístico da mostra.
O encontro será no: Instituto Goethe
26 de outubro 2007, sexta, 19h
Rua Lisboa, 974 - Pinheiros
11 3088-4288
Lisette agora é minha colega como professora do Mestrado em Artes Visuais da FASM - Faculdade Santa Marcelina e faz parte da linha de pesquisa em Teoria e História da Arte.
Sua vinda foi muito bem vinda e pretendemos gerar algumas discussões de caráter interdisciplinar que perpassem nossas linhas de pesquisa. Vai ser muito interessante.
Enquanto isso, na Linha de Pesquisa em Arte, tecnologia e Interdisciplinaridade as coisas vão bem.
Acabei de postar um video bem mal feito da visita que Jorge La Ferla fez a FASM. Numa parceria com o Video Brasil, Chris Mello convidou La Ferla para apresentar suas reflexões sobre o cinema e o digital para nossa Linha de Pesquisa.
Foi muito bom e tivemos tambem a apresentação do videoartista argentino Marcelo Mercado.
Brevemente (se Deus quiser, pois não acho a aluna que fez a gravação) vou postar no site da linha o audio completo da palestra.
Para quem quiser ver à página da linha (InterArt) clique aqui no link do
Teletransport.org
Novidades (depois de 3 meses...)
O
GEPI - Grupo de Estudos e Pesquisa em Interdisciplinaridade da PUC/SP, grupo do qual faço parte como pesquisador, resolveu iniciar o projeto de uma revista eletrônica.
Fiquei muito contente pois, além de ficar a cargo do projeto da revista, o primeiro número terá como tema os meus textos sobre interdisciplinaridade postados em blogs ao longo de vários anos.
Quando começei a fazer a coleta dos textos fiquei impressionado: tinha mais de duzentas páginas publicadas na internet.
Outra coisa que me surpreendeu foi a influência que estes artigos tem tido na produção de pesquisa dos novos pesquisadores do GEPI. Através do google eles tem acesado os textos e se referênciado neles.
Esse tipo de informação foi muito importante para mim ao longo dessa semana. Num país onde os frutos da pesquisa acadêmica parecem ser tão pouco valorizados receber a informação de que, silenciosamente, seu trabalho está ajudando a formar outros pesquisadores é muito gratificante.
Quando a revista estiver no ar coloco o link para ela aqui.
Quarta-feira, Junho 13, 2007
Acabei de ler o prefácio da versão brasileira de "A transfiguração do lugar comum" de Arthur Danto.
É impressionante como em cerca de dez páginas Danto faz uma síntese perfeita de toda sua forma de pensar sobre arte e sobre o mundo.
Eu havia lido ha alguns anos a versão original deste texto e quando fui conferir a tradução editada pela Ed. Cosak & Naif em 2005 dei de cara com este prefácio. Uma das coisas que mais me chamou atenção é que nele Danto faz menção a uma coisa que tinha passado despercebido por mim na leitura anterior: que todos as suas reflexões e a construção da teoria do Art World e dos sistemas artísticos foram fundamentadas através do interesse que ele teve com a produção artística da década de 60 e principalmente da pop arte. Pela primeira vez claramente entendi por que o discurso de Danto sempre fez tanto sentido para mim.
De certa maneira algumas pessoas associam meu trabalho a pop art e talvez mais adequadamente ao que chamamos de Neo Pop. Talvez essa associação seja feita por eu me utilizar muito de uma certa transgressão e ireverência na reflexão sobre os meus objetos artísticos, conceitos estes ligados diretamente a pop arte.
Dentre os trabalhos que expressam bem esse reverência posso citar o personagem específico Maria de Castro e siteespecifico.com. Nesmo na minha produção em vídeo, que é mais comportada, podemos notar alguns elementos disfarçados com uma certa transgressão.
Outra coisa interessante é que a lógica que faz com que minhas reflexões sobre Interdisciplinaridade se focalizem soube a legitimação da produção do conhecimento tem relação direta com o que Danto coloca como sendo o papel fundamental do filósofo e a impossibilidade deste ser um especialista. Para o autor o filósofo como ser que tenta entender o mundo não pode fazer essa compreensão de um lugar especificamente localizado. De certa maneira, como ele coloca ao explicitar até a forma como ele se relacionava com o que o rodeia, é preciso uma certa erudição no entendimento das coisas do mundo. Sem dar nome específico para a coisa Danto fala aqui nada mais nada menos do que alguns dos princípios interdisciplinares.
Estou pensando, como exercício, conversar um pouco melhor com esse texto tão sintético e de maneira dialética, como o próprio autor faz ao longo do livro, explicitando melhor para mim mesmo a relação que existe entre essa forma de pensar a arte e meu trabalho artístico e teórico.
Vou até ver se envolvo os alunos da disciplina do mestrado FASM nessa empreitada.
Marcadores: Arthur Danto, Neo Pop, Pop Art
Terça-feira, Junho 12, 2007
Hoje o dia está bastante interessante. Eu e milhões de macmaniacos no mundo estaremos esperando as novas revelações que a Apple está apresentando em seu evento anual.
E o que tem a ver isso com a Interdisciplinaridade, a arte tecnológica, e este blog?
Bem, antes de mais nada acredito que em o sistema X seja a melhor experiência de convergência digital no mundo dos softwares operacionais, portanto qualquer inovação que a Apple lance tem muito a ver com meu projeto de pesquisa. Seu tema é sobre a interdisciplinaridade e as convergências tecnológicas, com foco nas questões artísticas. Essa relação entre a Interdisciplinaridade e o conceito de computador pessoal que a Apple desenvolve também faz parte das minhas reflexões iniciais neste projeto de pesquisa, no entanto esse assunto já tem produzido alguns desenvolvimentos importantes em meu trabalho. Como exemplo posso dizer que essa relação é um dos indícios primeiros para que eu me interesse que a atualização do Ateliê de Arte e Tecnologia FASM seja feita dentro da plataforma Apple.
Nesse caso meu interesse não é apenas o de alguém que trabalha com esse sistema mais sim de alguém que está interessado em manter a coerência de um projeto de pesquisa. No caso específico da arte tecnológica podemos dizer que no mínimo é claro o interesse dos artistas midiáticos pelos computadores Macintosh. A facilidade com que podemos desenvolver trabalhos em vídeo, música e internet é muito apreciada pelos artistas voltados para a arte contemporânea.
No meu caso específico o uso desse tipo de equipamento também auxilia minhas experiências com a plataforma Second Life. O uso do programa de acesso ao Second Life em um Macintosh, dadas as suas conhecidas configurações de vídeo, pode muitas vezes ser mais fácil do que na plataforma wintel (PC). Tenho notado que Macs com configurações de placa de vídeo inferiores a PCs turbinados com placas aceleradoras acabam propiciando uma navegação mais agradável e sem sobressaltos no visualizador do Second Life. Essas considerações são algumas das reflexões que deverei registrar no primeiro relatório de pesquisa referente a este projeto.
E quanto a esse blog... bem, ele é publicado atraves de um Mac. Para montar meu site utilizo o software Rapidweaver. E como novidade ando ditando os textos deste blog através de um software para o Windows, o ViaVoice, virtualizado no Macintosh através do software Parallels!
Quer mais? Acho que já expliquei...
Segunda-feira, Junho 11, 2007
Hoje vou receber um grupo de alunos da FAUUSP para entrevista no Santa Marcelina.
Essa atividade faz parte de um trabalho para a disciplina de ética profissional que é dada no último ano do curso de arquitetura. Neste trabalho os alunos estão encarregados de entrevistar ex-alunos da FAU para mapear um pouco da sua trajetória profissional. O encarregado da disciplina ainda é o mesmo, o professor Francisco Segnini, da época em que eu mesmo cursava a FAU.
Fiquei pensando sobre que história contaria para aqueles alunos, afinal de contas não posso dizer que eu tenha uma carreira em arquitetura. Logo após a faculdade comecei a estudar na área de Interdisciplinaridade e ensino e a partir daí enveredei por outras áreas como o campo das artes visuais.
No entanto estava esquecendo de uma coisa muito importante: a experiência que ando desenvolvendo no Second Life tem tido sucesso basicamente pela minha formação como arquiteto.
É verdade... Tenho conseguido fundos virtuais para minhas experiências dentro do Second Life comprando terrenos (virtuais) baratos em vizinhanças pouco valorizadas. logo em seguida construo nesses terrenos espaços bem planejados, bonitos até, que acabam por valorizar o bairro. No final acabo vendendo o terreno por um valor bem superior ao que comprei. No início comprei um terreno no que poderíamos chamar de loteamento popular e atualmente já possuo instalações em vizinhanças com maior infra-estrutura.
Na semana passada percebi que já estou chamando a atenção da comunidade de arquitetos virtuais do Second Life. Eu estava construindo mais um espaço para o Núcleo de Arte e Tecnologia quando percebi que quase 30 avatares, bonecos que nos representam no mundo virtual, estavam me observando flutuando a cerca de 30 m de altura e distribuídos em círculo por cima de meu terreno.
Um dos avatares se aproximou e começou a falar (teclar). Outro se aproximou e comentou "Não tente conversar agora, ele precisa de concentração".
Confesso que fiquei bastante lisonjeado, mas também preocupado. Parece que minhas construções virtuais já tem o que poderíamos chamar de um certo estilo. Daqui para frente vai ficar cada vez mais difícil eu projetar qualquer coisa no Second Life de uma maneira mais descompromissada.
Aliás, preciso lembrar de colocar algumas imagens desses projetos aqui ...
Marcadores: FAUUSP Second Life arquitetura Ricardo Hage
Domingo, Junho 10, 2007
Estou fazendo esse post através ViaVoice 9 em português. Esta foi a última versão do programa que fazia reconhecimento de voz em língua portuguesa. Fiquei interessado novamente neste programa por causa da minha famosa tendinite. Basta ficar algumas horas com o mouse na mão que uma dor insuportável começa a se e irradiar pelo meu braço.
Mas, como sou uma pessoa problemática, resolvi que queria testar o programa simplesmente no meu iMac com processador Intel.
E como foi que resolvi isso? Já estou testando a nova versão do Parallels, a versão 3 desse famoso emulador de sistema operacional para Mac OS X. Ativei o programa e a instalação foi tranquila, o que me deixou bastante espantado. A versão do ViaVoice que tenho é de 2001 .Imaginei que ela não funcionaria num hardware tão alienígena para o Windows quanto um Mac Intel.
E não é que funcionou? O ViaVoice reconheceu o microfone interno do computador como sendo um microfone USB. O reconhecimento de voz parece funcionar bem mesmo ainda antes do primeiro treinamento. Sim, este tipo de programa requer muitas vezes uma espécie de treinamento para um reconhecimento inicial da voz do usuário. Mas, talvez impulsionada pela capacidade de processamento de meu iMac o reconhecimento de voz começou funcionando rapidamente.
Não sei se algum dos meus leitores notou, mas este texto tem uma espécie de toque formal, um pouco diferente da forma como geralmente me comunico. O problema é que para um bom reconhecimento de voz o ViaVoice e outros programas precisam de uma fala pouco coloquial. Talvez com o tempo o programa comece a expressar melhor a minha maneira de escrever e de falar mas por enquanto ele me transforma num verdadeiro Academico.
Daqui para frente o que pretendo fazer é descobrir uma maneira de, com o ViaVoice rodando no Windows através do Parallels, fazer com que os programas rodando no Mac OS recebam o reconhecimento da minha voz para ativar comandos e fazer ditados em processadores de texto. Talvez essa seja uma maneira de fazer com que pessoas com problemas físicos possam usar um Macintosh com reconhecimento de voz nativo em português. Em princípio esse experiência não tem nada a ver com meus projetos de pesquisa no Nucleo de Arte e Tecnologia do Mestrado em Artes Visuais na FASM-Faculdade Santa Marcelina, mas bem que poderia utilizar esse trabalho, por exemplo, na implementação de instalações imterativas e outros trabalhos em novas mídias.
Bem, vamos ver até onde vou chegar.
Quarta-feira, Maio 30, 2007
Notícias sobre o andamento da disciplina "Fundamentos Interdisciplinares da Arte Tecnológica"que estou ministrando no Mestrado em Artes Visuais da FASM: estamos começando a elaborar os textos que deverão constituir uma publicação sobre a natureza inter e transdisciplinar das artes no início do séc. XXI. Estudamos os fundamentos da teoria da Interdisciplinaridade, as propostas Transdisciplinares e sua relação com as visualidades no mundo contemporâneo.
Acho que estamos no caminho certo...
Enquanto isso, no SecondLife, continuo minha experiência no mundo virtual.
É incrível o dinamismo do ArtWorld nesse não-lugar. Exposições são abertas todos os dias e formas específicas de arte são produzidas através da discussão das questões tecnológicas do que se convencionou chamar "in world" ou mundo interno do Second Life.
O NAT - Núcleo de Art e Tecnologia da FASM já tem duas presenças virtuais lá dentro, uma delas com 2500m2 virtuais.
Nelas estou apresentando as instalações "Cubo Branco - Negativos". Começei a pensar nesses trabalhos quando Michel Yves Seiler voltou da montagem de sua exposição no Museu de Arte Contemporanea de Uberlândia dizendo que tinha "brigado"com o espaço expositivo. Num determinado momento disse que aquilo parecia o avesso da idéia de cubo branco (ou seja, um espaço neutro para a instalação da obra de arte).
Resolvi então brincar com isso e o melhor lugar do mundo para essa experiência seria o ambiente virtual do Second Life.
Criei lá dois grandes cubos brancos ocos de 10x10x10m e coloquei em seus centros dois pequenos cubos também brancos (programados para gerar iluminação).
Nas superfícies internas dos cubos grandes coloquei imagens de minhas pinturas virtuais (feitas no Painter) e então as animei com scripts de movimentação. As imagens andam pelas paredes internas do cubo e são iluminadas pela luz que sai dos pequenos cubos.
Enfim, é o avesso da idéia de cubo branco.
Quem quiser visitar é só ter o programa do Second Life instalado e clicar nesse link:
http://slurl.com/secondlife/Euthrix/238/111/41
Segunda-feira, Maio 14, 2007
Dois meses sem postar nada...então, fuçando minhas coisas para a apresentação de minha trajetória de pesquisa aos alunos do Mestrado em Artes Visuais FASM achei três artigos perdidos no meu primeiro blog. Foram escritos em 2002 mas ainda estão atuais, então, lá vai:
Publicado originalmente em 06/07/2002 13:38
Por uma Interdisciplinaridade Rigorosa
Ricardo Hage de Matos
O dia de hoje parece ser um dia onde eu estou me deparando o tempo todo com a questão do rigor!
Pela manhã conversei com minha secretária, Ana Maria, sobre os problemas que ela pode ter criado na cabeça dos filhos ao tentar lhes contar uma história que eu tinha contado a ela, a história do esporte. Falávamos outro dia sobre a Copa do Mundo e eu contei a ela sobre a transformação que ocorreu ao longo de milênios entre a guerra e os jogos de guerra, processo esse que resultou na criação do esporte moderno. Fazendo uma síntese, fui do Circo Romano à Copa do Mundo. Ana Maria é extremamente inteligente mas tem algumas deficiências de conhecimento quanto a história da civilização: ela não conseguia ver muito bem a diferença entre os Gregos e a Europa da Idade Média. Esse é o cerne do meu problema de hoje: ao tentar contar essa “pequena” história do esporte aos seus filhos ela sofreu uma enxurrada de questões sobre o pano de fundo desse processo. Eles queriam saber quem eram os povos, países e governos envolvidos no processo. A lacuna que ela deixou na informação dada a seus filhos tem a ver com a situação, o locus, dos sujeitos que fizeram parte dessa história. Faltou rigor nessa sua “aula”. Para que a informação fosse rigorosa Ana Maria deveria ter o controle de todos os elementos que nos possibilitariam entender o processo de criação do esporte moderno!
Estou sendo chato?
Que dever tem a coitada da Ana Maria em conhecer a história da civilização ocidental?
Na realidade quando aprendemos alguma coisa devemos entender que esse aprendizado tem que ser relativamente rigoroso. Qual é a vantagem em aprender a escrever um pouco, aprender a calcular um pouco (detesto matemática) ou aprender a pintar um pouco? Nenhuma, apenas gastamos tempo e dinheiro já que não há sentido em aprender um determinado conhecimento pela metade!
Devemos também entender que quando nós professores não temos todas as informações sobre um determinado conteúdo (curricular) precisamos pesquisar sobre esse conteúdo ou, minimamente, informar o aluno que algumas peças do quebra cabeças estão faltando. Ele tem esse direito.
Fiquei mais estarrecido com a falta de rigor que assola o mundo ao assistir por acaso um programa de televisão sobre a Bíblia. Estava fazendo a digestão após o almoço e passeando pelos infinitos canais da TV a cabo quando me deparo com a história de Roma vista de um ponto de vista profético. Nem mesmo um hermenêuta da Biblioteca de Alexandria poderia fazer uma tal leitura distorcida de fatos históricos muito bem registrados por sinal. Fiquei pasmo! Pelo olhar de uma pessoa menos informada, com pouca informação histórico/cultural, o apresentador poderia parecer alguém detentor de uma verdade justa e certa. Quantas preconcepções não foram criadas ao longo da história pela simples manipulação de um conhecimento dito científico!
O rigor na Interdisciplinaridade nada mais é do que um compromisso tácito entre professor, pesquisador, aluno e o conhecimento.
Esse é um compromisso de respeito mútuo!
Ser rigoroso na Interdisciplinaridade não significa buscar loucamente todo e qualquer material bibliográfico apenas para ter um “texto” cheio de notas de rodapé. Na realidade essa busca enlouquecida deve ser por autores que conversem conosco dentro de nosso “texto” e que nos possam ouvir (metaforicamente) da mesma forma como os devemos compreender para que possamos nos tornar professores rigorosos.
Devemos perceber a impossibilidade que o ser humano tem de conhecer o todo mas também reconhecer a necessidade da busca infinita por essa coisa tão necessária que é um saber rigoroso.
Publicado originalmente em 05/07/2002 00:06
Interdisciplinaridade e Transdisciplinaridade: resolvendo o problema!
Ricardo Hage de Matos
Estamos acostumados a entender que tudo no mundo é hierarquizado. Há sempre algo ou alguém que é superior a toda uma ordem de grandezas. O racionalismo introjetado em nossa cultura pelo positivismo é em grande parte o culpado por essa nossa necessidade de hierarquização. É dentro dessa perspectiva que podemos entender a preocupação crescente que existe entre os pesquisadores em educação sobre as questões da Inter e da Transdisciplinaridade. As perguntas que se fazem são as seguintes: a Transdisciplinaridade é superior a interdisciplinaridade? E essas duas categorias são superiores a multidisciplinaridade?
No âmbito da epistemologia essas perguntas não tem sentido. Podemos dizer que, na atualidade, a Interdisciplinaridade e a Transdisciplinaridade são áreas que estudam um mesmo movimento no conhecimento a partir de pontos diferentes. A interdisciplinaridade é uma discussão que surgiu na área de educação a partir da revolução estudantil de 1968. Uma série de revoltas e greves estudantis gera uma demanda para a mudança nos sistemas educacionais, demanda essa que não podia ser resolvida pelas teorias existentes, ou pelo menos essa era a percepção revolucionária vigente na época. A França foi o primeiro país a testar a possibilidade de um novo paradigma na educação e a partir de 1970 inicia-se um primeiro núcleo de estudos interdisciplinares na Universidade de Grenoble. É a partir daí que durante 30 anos pesquisadores da área de educação no mundo todo perseguem a ideia de se construir uma teoria da Interdisciplinaridade. Na atualidade os três grandes pólos de pesquisa nessa área são a França, os Estados Unidos e o Brasil.
Já a Transdisciplinaridade é um questionamento que surge a partir da física quântica e está voltada para a pesquisa dos novos paradigmas do conhecimento na área das ciências exatas. A Transdisciplinaridade inicia-se como uma ideia difusa entre vários cientistas que pesquisavam as partículas subatômicas durante os idos de 1950 e que começaram a perceber como seus desejos e vontades interferiam em seus experimentos científicos. Muitas vezes foram observados fenômenos nestas experiências que não eram reproduzíveis nem previsíveis e que só podiam ser explicados devido a presença ou não de certas pessoas nos recintos dos laboratórios no momento da experimentação. Isso era simplesmente absurdo dentro dos cânones da ciência positivista e a partir daí inicia-se as discussões sobre a busca de um novo paradigma de conhecimento científico que pudesse englobar todas as dimensões do conhecimento humano. Era o desejo da superação da disciplinaridade a partir da constatação de que ela não dava mais conta de responder a todas as necessidades do cientistas.
Resumindo a questão: a Interdisciplinaridade e a Transdisciplinaridade só não são a mesma coisa porquê partem de pontos diferentes (educação e ciência) para resolver questões diferentes (método de ensino e método de pesquisa científica). No mais utilizam-se do mesmo arcabouço filosófico e no fundo falam a mesma língua.
Professores e educadores de um lado, cientistas do outro, esses grupos aprofundaram a discussão de questões que estavam adormecidas a séculos! Sim, a maior parte das questões na Inter e na Transdisciplinaridade já eram conhecidas até mesmo pelos gregos, no entanto essas questões foram enterradas quando a fragmentação do conhecimento feita pelo racionalismo tornou-se hegemônica na produção do conhecimento humano.
Essas questões fundamentais são aquelas que discutem qual é o sentido que tem o Homem dentro do conhecimento e de como esse ser humano pode produzir um saber humanizado.
A Interdisciplinaridade e a Transdisciplinaridade buscam apenas recolocar o conhecimento na mão daquele que a produz, o próprio ser humano.
Publicado originalmente em 04/07/2002 13:51
A Interdisciplinaridade é um estado de espírito
Ricardo Hage de Matos
Ao longo de muitos anos várias pessoas tem me perguntado o que é interdisciplinaridade ou como podemos chegar a ela. Essas sempre foram perguntas difíceis. A questão da Interdisciplinaridade no ensino é maior do que simplesmente pensarmos em aplicar um receituário de ações e tarefas que poderão caracterizar o nosso trabalho como interdisciplinar.
Posso dizer que a interdisciplinaridade é nada mais nada menos do que o reflexo do povo que a está tentando produzir em um determinado momento.
Como assim?
Vivemos em um mundo que está saindo da fragmentação do conhecimento causada por todo o racionalismo para algo ainda nebuloso e difuso chamado pós-modernidade. Ninguém sabe ao certo o que é isto. Da mesma forma como tem acontecido há alguns séculos a humanidade passa por aquele sintoma de “fin de siecle”: não sabe para onde vai e acaba se agarrando à tradição. A partir daí podemos entender porquê estamos vivendo alguns movimentos muito “reacionários” em relação à pesquisa e a educação. Um exemplo disto é a forma como as teses e dissertações estão sendo apresentadas nas instituições de ensino e pesquisa. No início dos anos 90, quando terminei meu mestrado, pude entregar minha dissertação encadernada em espiral e com uma capa ilustrada. Usei o formato de papel carta para acomodar meu material. Hoje em dia eu não poderia entrega-la assim. As instituições estão exigindo um mesmo padrão de entrega monográfica, padrão este que está mais do que superado e que não exige do pesquisador nenhuma reflexão sobre a forma e a função na apresentação de seu relatório. Por exemplo, um pesquisador que necessite usar o formato paisagem na formatação de seu trabalho estará impossibilitado pela burocracia das instituições de ensino na maior parte das vezes. O estado de espírito das pessoas que constroem com seu poder esse imaginário padrão monográfico é o mesmo da humanidade na virada do século: agarrando-se ao passado com medo de deixar o futuro fluir para dentro de seus corações.
Esse é o estado de espírito de nosso povo hoje em dia. Apegamo-nos a tradições das quais nem sabemos as origens. Acreditamos piamente que velhas soluções são as soluções mais eficientes para o futuro. Acreditamos que velhas soluções são na realidade novas soluções. As soluções em educação alinhan-se na atualidade com o que há de mais conservador quanto as questões do controle e do currículo. Especialistas da área financeira são chamados para dar “palpites” sobre a forma como as coisas da educação devam ser geridas. Keynes daria boas gargalhadas ao ver escolas sendo tratadas como a economia americana da época da grande depressão!
É paradoxal que deixemos a situação da educação chegar a esse ponto já que fazemos parte de um povo que nunca respeitou o estabelecido, que sempre riu daquilo que estava formalizado e criou o novo a partir de tudo o que é mais sagrado na ciência e na arte. É apenas a partir desse jeito de ser do brasileiro que podemos entender a Interdisciplinaridade no Brasil.
O estado de espírito de alguém imbuído em uma ação interdisciplinar é, ao contrário da disciplinaridade, o de alguém que está produzindo o novo e o incerto. Um professor trabalhando na Interdisciplinaridade é alguém que está criando condições para a mudança que obrigatoriamente virá por aí, capitaneada ou não pelo homem. Uma pessoa Interdisciplinar é aquela que irá dar sentido a ciência, a arte e a tecnologia , coisas essas que hoje em dia parecem tão pouco humanizadas.
A Interdisciplinaridade é o estado de espírito daquele brasileiro para o qual a vida, com todas as suas dificuldades, tem muita graça e vale muito a pena.
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