Essa ata é simplesmente uma obra prima, hehehe.
ATA DE REUNIÃO – NÚCLEO DE ARTE E TECNOLOGIA
Sob a coordenação do Dr. Ricardo Hage de Matos, no dia 29 de Abril de 2004 às 14 horas, aconteceu a reunião semanal do Núcleo de Arte e Tecnologia FASM.
Os trabalhos contaram com a participação dos pesquisadores Eliana Del Bianco Alves, Vera Sanovicz, Valérie Dantas Mota, Maia Luiza Girotto Gentil, Madali Rosa, Débora Censi e Diego Castro. Contamos com a assistência de Carolina Toledo, técnica do Ateliê de Arte e Tecnologia.
Vera Sanovicz apresentou ao grupo sua preocupação com a falta de outros horários de trabalho no Ateliê de Arte e Tecnologia além daquele reservado as reuniões do grupo. Sua pesquisa entra agora em um momento de grande produção e a dedicação ao trabalho exige uma maior utilização desse espaço. A pesquisadora indica também que é necessária uma atualização nos equipamentos do Ateliê. Nota que é particularmente importante a existência de digitalizadores dedicados a material transmissível (negativo e slide), já que contamos apenas com um scanner de mesa com adaptador de slides. O assunto foi informado a coordenadora do Departamento de Artes Plásticas, Mirtes Marins, para posterior encaminhamento à direção.
Eliana Alves informou sobre a possibilidade de iniciar trabalhos com uma ONG dedicada a alfabetização de adultos utilizando a arte como tema gerador. Ela ainda não sabe qual poderá ser seu papel neste trabalho mas acredita que existirá um problema de infra estrutura tecnológica dado que provavelmente será difícil contar com o uso de computadores e data show. Acreditando que na falta de equipamento de informática possa utilizar ao menos projetores de slides, a pesquisadora questiona Ricardo Hage sobre as possibilidades de se fotografar digitalmente livros de arte transformando essas imagens em diapositivos. Valérie Mota, inspirada pela discussão, coloca também que está a procura de um projetor de slides, dado que o uso de data show em algumas de suas instalações pode ter um custo proibitivo. Ricardo Hage indica a possibilidade da transformação da imagem digital em filme positivo ou diapositivo, indicando alguns laboratórios que poderiam fazer essa conversão. Quanto a questão da compra de projetores usados no intuito de baratear os projetos artísticos indica uma procura a região da Rua Sete de Abril no centro de São Paulo bem como a procura em publicações especializadas. Maria Luiza Gentil indica também a possibilidade do uso de episcópios artísticos, vendidos em casas de material para arte. Esse equipamento, de grande versatilidade, poderia ser utilizado como alternativa quando da impossibilidade do uso de equipamento digital. Dada a conjuntura econômica do país Ricardo Hage considera então necessário rever algumas posturas estabelecidas sobre a questão da arte e da tecnologia. O coordenador recorda também do extenso uso de episcópios nas aulas de história da arte lecionadas por Aracy Amaral na FAU/USP quando ainda era aluno de graduação.
As orientações sobre o trabalho artístico são iniciadas com Maria Luiza Gentil, como determinado na reunião anterior. A pesquisadora apresenta fotografias sobre seu trabalho em pintura a óleo e que se tornará mote para uma discussão sobre a computação gráfica. A partir dessa discussão pictórica Maria Luiza produz então pequenos trabalhos em pintura projetados como “cobaias”, imagens produzidas com o intuito de ser digitalizadas e manipuladas em computação gráfica. Esses retalhos de pintura, produzidos em grande número, foram digitalizados, manipulados no software Photoshop e impressos sobre papel, no intuito de produzir uma linguagem nova ou novos aspectos daquela mesma linguagem pictórica. Suas primeiras experiências apenas modificaram características como saturação de cor, luminosidade e contraste. Maria Luiza apresenta também uma nova série de pinturas que ainda serão digitalizadas, mas que já refletem questionamentos levantados na primeira série de experiências. Ricardo Hage considera que o conceito ao qual ela está atrelada é o da Transformação, sendo que a pergunta geradora de sua pesquisa seria “Qual a metamorfose possível na imagem digital?”. A partir da observação da aparência das imagens, Eliane Alves imagina a possibilidade da produção de movimento na imagem digitalizada. Ela acredita que seria interessante movimentar as imagens estáticas digitalizadas em um software como o iMovie no intuito de um maior desvelamento do processo de produção dessas imagens. A partir dessa reflexão formal sobre os trabalhos de Maria Luiza, Ricardo Hage coloca ao grupo que as pinturas se assemelham em forma a imagens fractais e recorda de seu estudo em vídeo arte nomeado “Fractalizando”(2002) onde o pesquisador filma, em close-up, o movimento dos restos dos pigmentos de aquarela deixados por seu pincel em uma terrina de água.
As reflexões sobre o trabalho de Maria Luiza levam Ricardo Hage a conclusão de que o trabalho da pesquisadora tem dois caminhos possíveis: no primeiro, a artista trabalharia com a manipulação de características de imagem, tais como saturação, curvas, níveis, luminosidade e contraste; no segundo caminho, a artista poderia trabalhar com a filtragem por efeitos especiais, utilizando uma série de plug-ins. Este caminho, nota o orientador, foi escolhido por ele em sua tese de doutorado. Ricardo Hage indica também, como forma de potencializar as reflexões da pesquisadora, a utilização de mídia virtual no software Painter com o uso de caneta digitalizadora. Terminando essa orientação, Eliana Alves e Valérie Mota indicam a importância de que a pesquisadora registre todo esse trabalho, talvez utilizando uma câmera digital ou vídeo.
Débora Censi apresenta algumas manipulações sobre fotografia digital onde altera as imagens do próprio Ateliê de Arte e Tecnologia criando efeitos. Associando imagens de flores e cores quentes ao espaço do Ateliê, critica com humor o ambiente estéril e ordenado que as vezes toma conta de nosso espaço de trabalho. De uma maneira inconsciente, não conseguimos como grupo implementar uma transformação imagética que deslocasse o ambiente do Ateliê para um paradigma de espaço mais orgânico, vivo. É ainda um desafio a ser superado.
Terminada essa orientação, Eliana Alves pede para que seja feita uma requisição ao FILE – Fórum Internacional de Linguagens Eletrônicas, na pessoa de Paula Periscinoto, para que haja um espaço próprio neste evento em que nossa linha de pesquisa esteja melhor posicionada. Essa discussão leva Ricardo Hage a fazer um balanço com o intuito de verificar qual o grau de adesão das pesquisas do grupo a linha de pesquisa “Produção da Imagem Tecnológica”. Madali Rosa coloca ao grupo que não consegue ver uma adesão clara de sua pesquisa a linha do Núcleo. A partir desse questionamento a pesquisadora é alertada por Ricardo Hage e Valérie Mota de que seu trabalho, apesar de tratar da virtualidade tecnológica, faz essa discussão através unicamente da imagem. Essa constatação mostra que sua pesquisa também está intimamente relacionada a linha do núcleo. Concluiu-se que a adesão dos pesquisadores à linha de pesquisa é total.
No mesmo sentido de fortalecimento do grupo, Ricardo Hage anuncia para breve o cadastramento do Núcleo de Pesquisa em Arte e Tecnologia FASM no CNPQ através do sistema Lattes. A Faculdade Santa Marcelina já está inserida no sistema possibilitando essa nova função. Esse cadastramento, a muito esperado, possibilitará uma melhor inserção da produção no Núcleo no meio acadêmico bem como a possibilidade de uma maior facilidade de financiamento para pesquisas e equipamentos. Os pesquisadores que ainda não possuem cadastramento foram alertados para providenciar o mais rápido possível seu registro no sistema de currículos Lattes.
Terminando o encontro e sob demanda anterior de Eliana Alves, Ricardo Hage inicia uma breve palestra sobre mercado, arte tecnologia e Art World. Os conceitos tratados pelo pesquisador foram comunicados pela primeira vez durante o Congresso Internacional de Aquarela, em 2003 e tomaram um rumo inesperado, fazendo parte agora de sua discussão sob culturalidade brasileira, trabalho conhecido como “O Ovo Belga”. Ricardo Hage apresenta ao grupo o panorama Norte Americano das artes visuais onde define em três os grupos produtores: os artistas “contemporâneos”, ligados as Instituições de Pesquisa e Universidades, herdeiros de Duchamp; os artistas “comerciais”, ligados a Galerias, mercado e expressão técnica, herdeiros de Whistler e Sargent; e os artistas “ilustradores”, ligados a Mídia, marketing e publicações, herdeiros de Rockwell. O pesquisador deixa bem claro que não existe uma pré-conceituação demarcada entre os grupos dessas determinadas heranças artísticas, situação que não ocorre no Brasil. Para ele cada um dos grupos, utilizando referências gerais, vive e produz com alguma harmonia, estabelecendo as bases para a legitimação das Artes Visuais como algo de importância na sociedade Norte Americana. Essa dinâmica leva a que o uso das novas tecnologias por cada uma dessas heranças artísticas seja visto de forma mais natural do que no Brasil. Exemplificando, Ricardo Hage coloca que nos Estados Unidos os artistas “contemporâneos” utilizam a tecnologia como meio de construção da própria linguagem artística (tecnologia como conceito); os artistas “comerciais” utilizam a tecnologia como suporte da linguagem (tecnologia como técnica artística); e os artistas “ilustradores” utilizam a tecnologia como meio de produção da imagem (tecnologia como produtor de eficiência na produção da imagem).
O pesquisador termina a palestra explicitando as diferenças entre o Art World Norte Americano e o Brasileiro a partir da possibilidade da existência de uma hipótese social brasileira. Essa hipótese social pregaria a impossibilidade como característica natural da sociedade brasileira, explicando assim a mecânica que parece impedir que possamos construir conhecimento novo e levando a discussão de “O Ovo Belga” a um novo patamar.