Blog Ricardo Hage.com
Segunda-feira, Agosto 30, 2004
 
Uma certa vez Mirtes Marins falou que eu me comportava como um homem do século XIX. Ela estava querendo fazer uma metáfora da forma como eu me relaciono com o conhecimento, um modus operandi que me obriga a me tornar “cientista” para atuar na arte tecnológica. Essa metáfora pegou mal, já que algumas pessoas (que nada sabem de história) entenderam-na como uma critica e começaram a usa-la com desdém: “Ah, lá vai o renascentista…”. Confundindo Romantismo com Renascimento começaram a me olhar como se eu quisesse ser Leonardo ou um pintor acadêmico. Quando Mirtes percebeu o que acontecia deixou de usar essa referencia mas, vira e mexe, alguém acaba se lembrando dela de novo. Essa questão foi importante quando desenvolvi um conceito inovador dentro da pesquisa em Interdisciplinaridade, a categoria do Erudito Interdisciplinar. Publicado em “A Academia vai a Escola” (livro organizado por Ivani Fazenda) e melhor desenvolvido em minha tese de doutoramento, o conceito do Erudito Interdisciplinar é uma metáfora avançada fundamentada na reflexão sobre esse meu certo “renascimentismo”. Já que estou querendo centrar a discussão de hoje somente na questão visual é melhor sair um pouco da teoria e ir à práxis artística, ou seja, como é que eu, à luz de tudo isso, produzo arte contemporânea?
No fundo tenho uma certa admiração pelo academicismo. Bem que eu gostaria de ter a paciência e o empenho de um Dali, para dar um exemplo de alguém mais próximo a nossos tempos e que trabalhava “academicamente”. Eu adoraria poder pintar de maneira fotográfica para construir idéias visuais sem precisar de produção complexa nem uma grande equipe, caso dos vídeos de Matthew Barney. A questão não é financeira, já que penso poder ser capaz de construir um projeto e ir atras de financiamento. Apesar das dificuldades existem instituições nacionais e internacionais que ainda se dispõem a financiar projetos de pesquisa em artes visuais desde que o projeto seja coerente e inteligível. Meu problema é sobre o controle da construção das visualidades, o poder compartilhado com aquele que me ajudaria a construir uma video arte “complexa”. Mesmo em projetos rigidamente controlados a participação de pessoal técnico científico na construção de uma obra de arte tecnológica é visível. Questões técnicas muitas vezes impossibilitam que uma idéia deixe a mente do artista para que possa se transformar em imagem, dados, software e interatividade. Em meu trabalho eu sempre inicio a reflexão a partir das tecnologias que eu mesmo implemento, estudo ou desenvolvo. Por exemplo, é a partir de meus primeiros estudos em vetorização de imagens que eu comecei a discutir as questões do Pop e do NeoPop na arte, e não o contrário. Construí a série de retratos “CyberDivas” como suporte para essa reflexão. Também foi a partir dos meus estudos sobre a qualidade da imagem digital, ainda nos tempos de minha Casio QV-10, que desenvolvi minhas reflexões sobre o sublime contemporâneo como corrente estética. Dada a péssima qualidade das imagens digitais disponíveis na época investi meus esforços nos aspectos clássicos da construção da imagem como a composição, a harmonia e a seleção de cores para produzir fotografias e vídeos que superassem essa condição. Esse tipo de reflexão aparece claramente na video poesia “Noturno Paulistano”, construída unicamente sobre imagens distorcidas pelo zoom digital da câmera.
Nessa semana em que iniciamos o Mestrado em Artes Visuais da FASM vou deixar isso bem claro para meus orientandos, não no sentido de tolher os seus trabalhos individuais e formata-los à minha imagem, mas sim no sentido de que eles possam entender a lógica que preside a maneira como produzo e pesquiso em artes visuais. Só assim eles terão segurança para começar suas pesquisas com esse doido varrido em que estou me tornando.
 
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