Acabei de reler a matéria sobre
Eduardo Kac escrita por Gisele Beiguelman originalmente publicado no Caderno Mais da Folha de São Paulo e agora divulgada no
Canal Contemporâneo. Sou fã do Kac a bastante tempo e compreendo muito bem toda a reflexão que está por trás de seu trabalho. O texto também é muito bom, conciso e imparcial. Dá pra ver resumidamente a trajetória de Kac de uma forma muito boa.
No entanto algo me incomodava!
Como alguns de vocês sabem tenho um problema com a relação entre arte contemporânea e cultura brasileira que desembocou a alguns anos na construção do “Ovo Belga”, uma ferramenta interdisciplinar de análise metafórica formal que é a ponta do iceberg de uma teoria sócio-cultural interdisciplinar.
O “Ovo Belga” está em processo de publicação, portanto não fico a vontade para destrincha-lo de maneira adequada mas posso dizer que, do ponto de vista da epistemologia cultural, o trabalho de Kac está descontextualizado.
Ele se apresenta e trabalha como um artista plástico, ponto! Suas origens poucas vezes são significativas (de forma explicita) na reflexão contida no processo de criação. Ele, apesar das origens contestatárias ao regime militar brasileiro, torna-se um artista positivo, já que suas reflexões estão alavancadas em uma ocidentalidade ideal. Não estou querendo dizer aqui que ele deveria fazer um Bumba Meu Boi transgênico mas ele é um ótimo exemplo do caminho para o qual as artes visuais brasileiras estão se direcionando, ou melhor, já se direcionaram. Da mesma maneira como fomos formados para uma colonialidade que se referencia na metrópole, fazendo com que no passado quiséssemos ser portugueses em Portugal (e não portugueses no Brasil), agora queremos ser ocidentais de maneira generalizada, construindo métodos complexos que nos possibilitariam nos tornar europeus, americanos ou melhor ainda, parte do Primeiro Mundo. Essa é uma questão importante que explica a falta de reconhecimento internacional em nossos esforços quanto a construção de conhecimento novo, não importa muito a área de pesquisa focalizada: não nos apresentamos como brasileiros mas sim como seres ocidentais idealizados, tão idealizados que deixamos de ser notados, não temos mais personalidade.
Esse processo é determinante para entendermos o beco sem saída no qual nos enfiamos como produtores de conhecimento, e que torna-se mais evidente ainda quando vemos o trabalho dos artistas visuais que exploram a tecnologia como constructo de suas poéticas.
Enfrentar a Carmem Miranda que habita em cada um de nós (e olha que ela era portuguesa) é um exercício doloroso mas muito importante.
PS: E não dá para negar que Eduardo Kac, como artista ocidental, é muito bom!