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Artes Visuais, Interdisciplinaridade e Ensino

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Quarta-feira, Julho 21, 2004

 
Pensei muito sobre a questão do FILE 2004 e escrevi:

O Relógio Mecânico à Luz de Snow

Este é um momento interessante em minha vida: estou relendo “As Duas Culturas” de Charles Percy Snow (vulgo C.P.Snow) e acabo de receber a notícia de que meu trabalho “Relógio Mecânico”, uma animação em tecnologia Flash, não foi selecionado para o FILE 2004.
Normalmente essa notícia, a da não aceitação do meu trabalho no FILE, me deixaria chateado, e realmente assim fiquei. No entanto, logo em seguida, lembrei-me de que “Nunca” eu passara em qualquer tipo de seleção, incluindo as inúmeras entrevistas de emprego as quais participei pleiteando algum cargo de arquiteto (profissão na qual sou formado) ou funcionário público. Para ser sincero o único evento artístico onde passei vitorioso pela seleção foi a Quadrienal de Aquarela. Devo dizer que os aquarelistas foram muito benevolentes comigo. É necessário notar também a presença de ex-alunos meus na banca julgadora.
A sensação que tenho é a de que sou muito diferente de tudo e todos e que, de alguma forma, eu nunca estou onde deveria estar: sinto que estou sempre atrapalhando. Meu trabalho não se encaixa em modelos, meu discurso não segue a lógica vigente e minha presença parece desestabilizar algumas situações.
Mesmo quando eu sinto aquela necessidade violenta de fazer parte de algo, de ser aceito dentro de uma comunidade, de ser normal enfim, não posso deixar de lembrar de que meu modus operandi é diferente.
Dentro da Teoria da Interdisciplinaridade consegui já há algum tempo entender um pouco melhor essa minha “desconformidade” em relação ao meio acadêmico, mas não havia desenvolvido de forma profunda essa questão dentro do meu trabalho como artista visual.
É aqui que Snow entra em minha reflexão.
Deparei-me com C.P.Snow nos idos de 1992, quando eu finalizava minha dissertação de mestrado. Sua obra principal, “As Duas Culturas”, havia acabado de ser editada pela primeira vez no Brasil. Este texto é na realidade a transcrição de uma série de palestras dadas por Snow em Cambridge em 1959 bem como seus comentários posteriores à crítica provocada por suas idéias.
Basicamente Snow denuncia a existência de duas culturas produtoras de conhecimento no sistema ocidental, a cultura científica e a cultura tradicional. Os produtores de conhecimento inseridos na primeira cultura tem o paradigma científico como norteador de um sentido de vida enquanto os integrantes da segunda cultura contam com o conhecimento humanista (aí incluída as artes) como referencial de mundo. Ele nomeia uma cultura de Cultura Científica e a outra cultura de Cultura Tradicional, já que está ligada a valores que surgiram a mais tempo na história do homem. A crítica de Snow a essas “Duas Culturas” é a de que, de modo assustador, elas deixaram de se comunicar, criando uma situação social e cultural que apenas prejudica a própria produção do conhecimento. Ele diz claramente que a distância entre os habitantes dessas duas culturas é tão grande “quanto a de se atravessar um oceano”. Snow coloca a sensação de estranhamento que, como eu, sentia em relação a sua vida quando nos diz que “...constantemente me sentia oscilando entre (esses) dois grupos, comparáveis em inteligência, idênticos em raça, não muito distantes em origem social, que recebiam quase os mesmos salários, mas que haviam cessado quase que totalmente de se comunicar entre si e que, na esfera intelectual, moral e psicológica, tinham tão pouca coisa em comum...”.
É assim que me sinto e assim que trabalho. É a partir disso que pretendo refletir sobre meu trabalho artístico e uma de minhas primeiras constatações é a de que, assim como Snow, eu mantenho em minha vida uma postura interdisciplinar que me permite caminhar entre essas “Duas Culturas”. Em vários momentos de minha carreira acadêmica tenho nomeado essa postura como sendo a do “Erudito Interdisciplinar”, um ser que percorre as fronteiras disciplinares sem dificuldades pois conhece a estrutura espistemológica da construção do conhecimento e que, dessa forma, não precisa conhecer tudo mas apenas saber “como” conhecer. Atuando como um erudito interdisciplinar eu transgrido as fronteiras das Duas Culturas diariamente produzindo dessa forma uma grande perplexidade entre aqueles que observam esse caminhar. Alguns apontam para uma certa arrogância de minha parte, imaginando que eu queira me meter em áreas de trabalho que já são suas. Outros ainda imaginam que eu viva em grande ingenuidade, naivité, e de que não tenha ainda, como uma criança ou adolescente, me fixado em alguma área específica de trabalho, em uma visualidade marcante ou em personalidade definida.
Na realidade a simples idéia de que eu deveria me fixar em qualquer idéia, visualidade, método de trabalho (e não o trabalho em si) por anos a fio é de grande violência a meu espírito aquariano.
É a luz da “Erudição Interdisciplinar” e das “Duas Culturas” que eu gostaria de analisar algumas questões em relação ao meu trabalho e a produção contemporânea de Arte Tecnológica.
Meu trabalho chamado Relógio Mecânico não é apenas um exercício tecnológico, pois se fosse seria um exercício superficial já que não demandou grande programação ou desafios técnicos: ele demandou desafios estéticos. Este trabalho é um exercício artístico que exige do observador uma postura que, muitas vezes, o habitante da cultura científica não quer ou não pode ter. Ao mesmo tempo é um trabalho cujo suporte, a computação, inibe um olhar sensível àquele indivíduo mais ligado a essa questão, ao integrante da cultura tradicional.
Produzi o Relógio Mecânico como um objeto visual. Sua melhor instalação seria em uma tela de cristal líquido ou plasma de grandes dimensões, sensível ao toque. Essa tela deveria ser exposta como expomos uma pintura, com a diferença de que ao observador seria permitido tocar na tela. A imagem que construí para o relógio mecânico é composta por formas orgânicas que se movimentam por oscilações, sempre perfazendo uma trajetória. Essas trajetórias são oscilantes, de ampliação, de circularidade bem como de desvanecimento e colorização. Apesar de não ter uma função cronométrica, essa obra parece a quem o vê exatamente o que também vi, um relógio. Na impossibilidade financeira de produzir esse tipo de instalação do trabalho, construí uma página simples na internet e lá coloquei meu relógio. Foi dessa forma, vendo a animação em um monitor e interagindo por mouse, que meu trabalho foi avaliado. Não creio que esse suporte fizesse meu trabalho diminuir em importância. Para entender porquê creio nisso devo descrever a reação que a secretaria do programa de Mestrado onde leciono teve ao ver o Relógio Mecânico em seu monitor: ela exclamou instantaneamente: “ai, que bonito!”. E era exatamente isso que eu queria desse trabalho.
A idéia do belo nas artes visuais dentro da contemporaneidade tornou-se quase um tabu. A partir de Kant, que nunca disse o que era o belo, e terminando em Hegel, que disse que o belo era uma determinação histórica e conceitual, falar que uma obra de arte é bonita soa quase como uma ofensa. Na contemporaneidade, particularmente no Brasil, trabalha com o belo o homem “inculto”, o artista desconectado de seu tempo; e trabalha com o conceito o artista “intelectual” que reflete sobre as questões visuais de maneira quase “científica” ou “filosófica”. O primeiro artista segue os manuais de pintura de paisagem de Walter Foster enquanto o outro lê Ricoeur para propor a interconexão entre realidade e espírito em um trabalho “site especific”.
O mundo das Artes Visuais conseguiu dessa forma fragmentar ainda mais as Duas Culturas criando dentro de si própria outras duas culturas antagônicas!
É como um fractal que, ao ser fragmentando, sempre carrega a informação original do todo.
Essa é uma situação de extremo conflito intelectual e cognitivo já que, a partir de um movimento de fragmentação tão paranóico, o artista visual perde toda a capacidade de se legitimar dentro de seu próprio contexto epistemológico. Ele não faz mais parte nem de uma nem de outra cultura. Como posso então falar de Interdisciplinaridade para um agente cultural tão fragmentado?
Essa é a questão que a recusa do Relógio Mecânico na mostra do FILE gerou, e que eu vou ter que responder.
Mas fica pra outra hora…


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