Apenas um resumo rápido de quarta-feira para cá:
Na disciplina de Metodologia da Pesquisa em Artes iniciamos o debate sobre “As Duas Culturas” de Snow. Uma coisa que tentei deixar claro para os alunos é que a contextualização histórica e cultural é sempre muito importante para que possamos entender corretamente o discurso de um determinado autor. Outro dado importante é a constatação de que um rigor muito grande é necessário para essa interpretação. Esse rigor se dá mais na profundidade do levantamento histórico/cultural do autor do que no aprofundamento da teoria estudada.
As reuniões no Núcleo de Arte e Tecnologia continuam em suspenso, mas já estou pensando em marcar um encontro em meados de outubro. Mudei o nome do projeto de pesquisa para “Arte e Produção da Imagem Tecnológica”. As duas linhas de pesquisa continuam as mesmas: “Produção da Imagem Tecnológica” e “Interdisciplinaridade, Arte e Ciência”. A linha de pesquisa sobre produção cria um ambiente específico para a construção de novas visualidades tecnológicas enquanto a linha de pesquisa sobre Arte e Ciência tenta entender essas relações a partir de um epistemologia interdisciplinar. Continuamos com o apoio de Ivani Fazenda e do GEPI – Grupo de Estudos e Pesquisa em Interdisciplinaridade da PUC de São Paulo. E Vera Sanovics mandou dizer por Sandra Becker que vai aparecer no Santa Marcelina mesmo sem reunião marcada.
Então tá…
Estou criando coragem para fazer uma critica a Bienal de São Paulo. Segundo uma certa curadora ninguém liga para o que eu falo, mas mesmo assim preciso de mais tempo para construir uma reflexão legitimável. Se daqui a uns 500 anos alguém achar o que eu falei, pelo menos que não me faça passar vergonha, hehehe.
Acabei de reler a matéria sobre
Eduardo Kac escrita por Gisele Beiguelman originalmente publicado no Caderno Mais da Folha de São Paulo e agora divulgada no
Canal Contemporâneo. Sou fã do Kac a bastante tempo e compreendo muito bem toda a reflexão que está por trás de seu trabalho. O texto também é muito bom, conciso e imparcial. Dá pra ver resumidamente a trajetória de Kac de uma forma muito boa.
No entanto algo me incomodava!
Como alguns de vocês sabem tenho um problema com a relação entre arte contemporânea e cultura brasileira que desembocou a alguns anos na construção do “Ovo Belga”, uma ferramenta interdisciplinar de análise metafórica formal que é a ponta do iceberg de uma teoria sócio-cultural interdisciplinar.
O “Ovo Belga” está em processo de publicação, portanto não fico a vontade para destrincha-lo de maneira adequada mas posso dizer que, do ponto de vista da epistemologia cultural, o trabalho de Kac está descontextualizado.
Ele se apresenta e trabalha como um artista plástico, ponto! Suas origens poucas vezes são significativas (de forma explicita) na reflexão contida no processo de criação. Ele, apesar das origens contestatárias ao regime militar brasileiro, torna-se um artista positivo, já que suas reflexões estão alavancadas em uma ocidentalidade ideal. Não estou querendo dizer aqui que ele deveria fazer um Bumba Meu Boi transgênico mas ele é um ótimo exemplo do caminho para o qual as artes visuais brasileiras estão se direcionando, ou melhor, já se direcionaram. Da mesma maneira como fomos formados para uma colonialidade que se referencia na metrópole, fazendo com que no passado quiséssemos ser portugueses em Portugal (e não portugueses no Brasil), agora queremos ser ocidentais de maneira generalizada, construindo métodos complexos que nos possibilitariam nos tornar europeus, americanos ou melhor ainda, parte do Primeiro Mundo. Essa é uma questão importante que explica a falta de reconhecimento internacional em nossos esforços quanto a construção de conhecimento novo, não importa muito a área de pesquisa focalizada: não nos apresentamos como brasileiros mas sim como seres ocidentais idealizados, tão idealizados que deixamos de ser notados, não temos mais personalidade.
Esse processo é determinante para entendermos o beco sem saída no qual nos enfiamos como produtores de conhecimento, e que torna-se mais evidente ainda quando vemos o trabalho dos artistas visuais que exploram a tecnologia como constructo de suas poéticas.
Enfrentar a Carmem Miranda que habita em cada um de nós (e olha que ela era portuguesa) é um exercício doloroso mas muito importante.
PS: E não dá para negar que Eduardo Kac, como artista ocidental, é muito bom!
Lá vão as informações sobre a LABOR III
Local: Rua da mooca, 815
Cronograma:
18, 19 e 25, 26 de setembro (sábados e domingos) das 10 as 18hs - Espaço de exposição aberto à visitação para os artistas. Nos mesmos dias as 12 e 16hs - explicação/exposição das idéias principais do projeto LABOR para os interessados.
1 e 2 de outubro (sábado e domingo) das 15 às 17hs - escolha dos lugares de exposição pelos artistas interessados.
22 de outubro a 22 de novembro - Montagem da exposição
24 a 28 de novembro - período de exposição
contatos:
Email:
labor3@yahoogrupos.com.br
Telefones em São Paulo, DDD 11:
Daniel: 3083 0735/9997 2435
Tatiana: 7146 0709
Roberta: 8121 3021
Estive com problemas de pressão durante o fim de semana e portanto não publiquei nada nesse período. E olhe que tive muita coisa a escrever…
Em primeiro lugar, a monografia de Valérie Dantas Mota para a Especialização em Artes Visuais da FASM está fazendo sucesso. Usei como exemplo de trabalho para o 4º ano da graduação e todos ficaram impressionados com o cuidado na apresentação e na elaboração do registro de memória de sua trajetória artística. É meio caminho para uma pesquisa de mestrado…
E a Tati Russo avisou sobre a organização da Labor III, Essa exposição e série de palestras organizadas por alunos do Santa Marcelina e FAAP (não sei se outras faculdades estão envolvidas) vai acontecer pela terceira vez em uma fábrica desativada na Mooca, São Paulo. Vou postar separadamente o cronograma da exposição. Todos os artistas interessados estão convidados a participar.
É engraçado pensar que a Labor vai acontecer próxima a Bienal de São Paulo…será que ela ainda vai virar uma espécie de “bienal do B” (digo, alternativa).
E o Daniel Nogueira Lima vai acabar virando mesmo curador…
Quanto aos estudos dos alunos de Mestrado em Produção, Teoria e critica em Artes Visuais na disciplina de Metodologia de Pesquisa em Arte, eles vão de vento em popa. As vezes acho que tenho ido a questões sofisticadas demais para os alunos, mas é realmente esse o papel de um mestrado. Pois é, se na graduação, e mesmo na especialização, o professor deve respeitar o limite do planejamento construído para aquele determinado currículo, nos cursos stricto sensu o limite é o conhecimento e a reflexão própria do professor. É daí que vem a exigência de que ele seja doutor, já que impera nesse processo algo impensável (ainda que existente na prática) no ensino graduado, a improvisação de uma reflexão que acontece naquele momento, junto com o aluno. Esse é o processo da pesquisa! Se o professor não está acostumado a esse processo e não tem auto estima suficiente para que possa entende-lo como válido (coisa que se espera de um doutor) formar um mestre, seja lá em que área, é muito difícil.
Moral da história: vou continuar exigente.