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Artes Visuais, Interdisciplinaridade e Ensino

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Sexta-feira, Outubro 01, 2004

 
Richard Avedon está internado em estado grave...
Vou postar essa frase da Folha só pra estudar melhor depois:

Sobre a obra do fotógrafo (Avedon), o filósofo Roland Barthes escreveu : "Olhe para um retrato de Avedon: nele você verá o paradoxo de toda grande obra, de toda arte de qualidade: o extremo acabamento se abre para a extrema infinitude da contemplação".

Quarta-feira, Setembro 29, 2004

 
Acabei de saber dos “ataques” as obras de Xu Bing e de Jorge Pardo que aconteceram na 26ª Bienal de São Paulo. Ainda não passei por lá, não aguento muito grandes concentrações de gente, principalmente se for de culturetes, mas pela descrição das obras e pelo tipo de ataque já podemos discutir um pouco até que ponto as ocorrências foram apenas atos de destruição ou sim uma nova forma de produção cultural. E por quê digo isso? Bem, segundo a Folha um grupo de crianças invadiu a obra de Xu Bing pisando por sobre o poema budista que ele escreveu com o pó recolhido da destruição do World Trade Center. Deixaram marcas de tênis e derrapagens. No domingo uma pessoa não identificada pichou a palavra NÃO sobre a instalação de Jorge Pardo. Segundo a Folha, Pardo é cubano radicado nos Estados unidos e sua obra parece uma “cabana feita de compensado”.
Vamos fazer uma “abdução” dessas ocorrências, como diria Gautier (o sociólogo, não o estilista) ou como fez Cláudio Tordino em sua dissertação de mestrado na PUC. Vamos retirar esses fatos de seu contexto e tentar enxergá-los de outra maneira.
Vejamos o caso das crianças…
Criança é um termo genérico que define apenas uma fase da vida humana e que está ligada a uma forma pouco consciente ou responsável de humanidade. Quando falo que crianças invadiram uma obra e a destruíram, é com essa contextualização genérica que a faço. Se no entanto faço uma pergunta especificadora, o contexto se altera radicalmente: que criança é essa?
Se foi um grupo de meninos de rua que invadiu a obra o significado se altera definitivamente. Essa destruição torna-se metáfora de um Brasil pobre e ignaro que invade uma exposição internacional (gratuita pela primeira vez) e nela não identifica aquilo que possa ser arte. Um “fusca que gira amarrado no teto da exposição” (obra do austríaco Leo Schatzl) é apenas uma molecagem de grandes proporções. Se lá não há arte de forma que esse “público” possa identificar algo a ser respeitado (normalmente algo que pressupõe grande técnica) então o negocio é participar da “brincadeira”.
Gente, isso sim é arte interativa!
Agora, e se o grupo de crianças é de classe média?
Bom, talvez essa seja uma hipótese menos provável, afinal, dentro do conjunto de valores da burguesia nacional não parece haver importância nenhuma para um grupo de crianças visitar a Bienal. É mais lógico ir ao shopping… Mesmo na improbabilidade desse fato devemos imagina-lo e daí a coisa pode ficar até mais complicada. Um grupo de crianças bem nutridas portando celulares percorre a Bienal e dá de cara com algo que parece ter sido feito com muito cuidado e dificuldade. Essa obra também parece ser efêmera já que é feita de pó, coisa que uma simples brisa pode destruir. Essas crianças estão acostumadas a duas coisas em particular: a efemeridade das coisas e da vida (a violência urbana, o stress e as doenças recorrentes disso) e a luta por tentar deixar marcas em coisas que tentam resistir a esse caos. É daí que podemos começar a compreender uma pichação. Para essas crianças testar o mundo para ver até onde ele agüenta é um dever. Vemos uma geração inteira de crianças e adolescentes de classe média tentando levar automóveis até o limite, levar a lei até o limite, levar os pais até o limite…por que não levar uma obra de arte até o limite? E onde estava a segurança? Em seu limite?
E foi de propósito que cheguei na pichação pois agora posso falar da outra ocorrência.
Não conheço Jorge Pardo mas é interessante que alguém tenha se interessado em pichar logo uma de suas obras. Vamos analisar esse caso de uma maneira um pouco mais dedutiva. Em primeiro lugar alguém entrou com uma lata de spray de tinta na Bienal, pelo menos é o que eu presumo. Há então uma intenção mas o propósito dessa intencionalidade é que pode ter formas diferentes. Em uma delas o autor do delito deliberadamente quer deixar sua marca na Bienal, não importa em qual obra. Pode ser uma forma de protesto em relação ao modo como os artistas são escolhidos a fazer parte da exposição, um grito em relação a maneira como o mercado de arte escolhe os seus eleitos, ou mesmo uma forma de chamar a atenção para ele, pichador, como alguém que também quer se inserir no meio.
Mas, e se o protesto for contra o artista escolhido para o ataque?
Bem, estamos falando de um cubano portanto o protesto pode ser anti Fidel. No entanto o cubano é radicado nos Estados Unidos portanto “viva Fidel” e “abaixo a globalização”. Aqui já temos um viés ideológico muito consistente e conheço vários estudantes de artes que ainda pensam com essa lógica. É capaz de aparecer algum retrato do Che Guevara na Labor desse ano…
Como disse não conheço o artista e ele que me perdoe pelo que vou dizer mas, e se o ataque tiver a ver com algo mais pessoal ainda? O pichador poderia ser a sua ex-empregada doméstica injustamente demitida. O NÃO pichado na obra poderia ser em relação ao não pagamento de seus direitos trabalhistas. E um artista cubano radicado nos Estados Unidos que não paga corretamente a sua empregada doméstica (item mais do que de luxo na sociedade americana) é realmente fundamento para qualquer obra de arte conceitual ou filme do Almodóvar.
Era nesse ponto que eu queria chegar: deslocando os ataques às obras da Bienal de sua territorialidade e abduzindo-os de seu contexto posso perceber que, do ponto de vista conceitual, eles também podem ser vistos como atos artísticos. Para que isso ocorra basta que haja uma intencionalidade Duchampiana: na contemporaneidade se eu digo que algo é arte esse algo se torna arte.
E eu me pergunto: quando e em que lugar do mundo será possível educar uma população de forma tão sofisticada que ela possa entender a arte conceitual como bela e legitima, ou mesmo natural?
Duvide-ó-dó…….

Terça-feira, Setembro 28, 2004

 
Por incrível que pareça esqueci de levar minha camera na defesa da Valérie. Para minha sorte Eliana Alves levou seu celular com camera e acabei lembrando que eu também tenho um! Pois é, acho que a minha implicância com a qualidade de imagem fez com que eu acabasse por esquecer dessa facilidade.
Pois então aqui vão algumas fotos:



Detalhe do Manto, objeto que Valérie apresentou em seu trabalho.


Valérie observa Madali Rosa provar o seu "Manto da Criatura"


Sérgio Romagnolo, sempre arroz de festa, trouxe os alunos da especialização para ver a defesa de Valérie

Segunda-feira, Setembro 27, 2004

 
Hoje vai acontecer a banca de apresentação do trabalho de conclusão da Valérie Dantas Mota na Especialização em Artes Visuais da FASM. A banca será composta por mim, o orientador; pelo Jofre Silva, professor do Mestrado em Cultura Visual da Universidade Federal de Goiás; e pela Mirtes Marins, coordenadora do curso de especialização (e do Mestrado também).
A defesa vai começar as 19:00hs.
Acho difícil falar alguma coisa do trabalho da Valérie nesta altura do campeonato: fui professor dela na graduação, fiz alguns trabalhos fotográficos sobre as seus objetos e fui orientador na especialização. Também ilustrei alguns dos folderes da faculdade com essas imagens, ou seja, não sou exatamente um fã (que não vou dar o braço a torcer) mas sinto-me envolvido com sua produção.
Alguns podem, a partir daí, pensar que o título do trabalho tenha alguma coisa a ver com esse envolvimento: "A Criatura".
Não, Valérie não é minha criatura de jeito nenhum! Se ela é cria de alguém talvez seja do Arthur Lescher ou da Shirley Paes Leme, mas eu nunca tive esse grau de intimidade ou importância em seu trabalho.
Pra falar a verdade acho que Valérie é a própria criadora de sua criatura e é isso que seu trabalho nos mostra.
A monografia desse trabalho basicamente apresenta a trajetória visual da artista para fundamentar a construção de um conceito, e esse conceito nada mais é do que uma metáfora visual.
A criatura que Valérie cria toma forma em trabalhos de computação gráfica e objetos onde a artista recobre o seu próprio corpo com escamas, transformando sua humanidade em outra coisa bem diferente, mas ainda assim Valérie.
A "Criatura" não é um trabalho final, é na realidade o ápice de um caminhar de vários anos e que nos aponta, a partir de uma série de estudos e de reflexões, quais poderão ser os novos caminhos da artista.
E como é bonita a monografia...um trabalho impecável!

A Criatura
Valérie Dantas Mota
Apresentação de trabalho de finalização da Especialização em Artes Visuais da Faculdade Santa Marcelina
27 de setembro de 2004
19:00hs
FASM - R.Dr Emílio Ribas, 89
Perdizes, São Paulo
Fone (11) 3824 5808

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