Sobre o projeto Pizza SP S/A
Algumas semanas atras Diego Castro, aluno da graduação do Santa Marcelina, disse para mim que ele e um grupo de alunos (alguns da FAAP se não me engano) estavam pensando em perverter um pouco o ArtWorld (bem, não foi bem esse termo que ele usou) entregando trabalhos de arte à domicílio embalados em caixas de pizza. Nada mais paulistano…Confesso que não entendi muito bem a proposta, nós estávamos na cantina e eu estava com um pão de queijo na boca, mais preocupado em enfrentar a fila do caixa para pagar a conta do que pensar em pizzas. Uma ou duas semanas depois Diego apareceu com a tampa da pizza impressa com o logotipo PIZZA S.P. S/A. Também não discuti esse nome e, novamente na cantina, captei a foto que coloquei no Blog alguns dias antes…
E na sexta feira antes do feriado, lá pelas 7:00hs da noite, toca o meu interfone e a portaria avisa que estavam me entregando uma pizza…Ana Maria, minha secretária que como sempre ainda estava aqui, falou que nós não havíamos pedido pizza nenhuma e, não sei por quê, lembrei da PIZZA S.P. S/A. Pedi a ela para ir buscar e logo em seguida ela volta com a tal pizza. E o que havia dentro da embalagem?
O projeto é composto por trabalhos em várias técnicas onde o suporte tem o mesmo formato redondo da pizza. Os artistas que fazem parte do projeto são Caio Formiga /impressão em massa), Carla Chain (gravura), Daniel Nogueira de Lima (desenho), Danilo Kim (lápis sobre papel), Diego Castro (impressão em vinil), Ernesto Kohler (impressão em jato de tinta) e Marcelo Camacho (gravura).
Uma coisa da qual senti muita falta é um ficha técnica dos trabalhos. Essa necessidade pode parecer pouco contemporânea mas fica muito mais fácil iniciar uma conversa sobre um trabalho a partir do conhecimento de suas limitações ou possibilidades técnicas. Como tenho criticado a um certo tempo, a nova geração de artistas tem esquecido de algumas questões ainda muito pertinentes na sociedade. Eles tem, por exemplo, mantido uma certa falta de organização e falta de cuidado no “acabamento” de obras de arte e de portfólios (principalmente). O quê parece ser a marca de uma geração e quê segundo Manovich poderia ser entendido como a superação da forma/função pela forma/emoção na pós-modernidade, acaba se refletindo apenas como um descaso que a obra em si não merece.
Os trabalhos do projeto PIZZA S.P S/A tem qualidade em sua diversidade. Conheço pessoalmente apenas alguns dos artistas o que faz com que seja mais fácil falar de seus trabalhos.
Caio Formiga, por exemplo, apresenta uma miniatura da grande impressão em massa que apresenta atualmente na exposição do Núcleo de Gravura da FASM, no Espaço Eugenie Villien. Seu trabalho nos remete à mandala ou à uma roda antiga, produzindo uma sensação de estranhamento quando identificamos nela a figura metafórica da cruz.
Marcelo Camacho estampa em sua pizza um Peugeot 206 equipado com lagartas para deserto provavelmente tentando transforma-lo em um tanque de guerra ou coisa parecida. Perverte assim suas formas belas e sedutoras em algo que faz parte de uma situação de guerra, de feiura e destruição.
Danilo Kim desenha muito bem e a partir daí reproduz em sua pizza uma cena do cotidiano, alguém sentado e dormindo em um banco de ônibus.
Diego Castro continua discutindo em seu trabalho questões da violência, do poder e da ideologia mas aqui apresenta uma síntese tão grande dessa discussão que apenas vemos um trabalho abstrato em vermelho e branco, muito bem composto apesar de inscrito em uma circularidade, mas reconhecível apenas por quem acompanha seu trabalho.
Daniel Nogueira continua discutindo as linhas dos postes das ruas da cidade a partir do desenho, trabalho pelo qual já é bem conhecido. Percebe-se claramente nesse trabalho a ligação entre linha e figura apesar do artista deslocar sua discussão para o campo do abstrato, aproveitando a própria circularidade do suporte, construindo assim um trabalho de grande equilíbrio.
Carla Chain parece descontruir uma pizza produzindo uma imagem de forte apelo gráfico: é como se tivesse construído uma gravura que reproduzisse o efeito de um filtro de Photoshop sobre a fotografia de uma pizza o que nos remete ao nome dado pela artista, “Arte ou Pizza?”.
Ernesto Kohler apresenta uma imagem de forte caráter subjetivo sem no entanto deixar para o observador a possibilidade de um reconhecimento. Constrói ao que parece o raio-x de uma pizza lembrando muito as imagens de chapas de pulmão e outras captações radiográficas do gênero.
Gostei do trabalho e, principalmente, da iniciativa. Entregar arte em casa (ainda mais para alguém que, como eu, tem fobia social e não vai a lugar nenhum, hehehe) é uma forma de forçar formadores de opinião a discutir a própria situação dos novos artistas que muitas vezes não conseguem espaço para apresentar seus trabalhos e que também não tem divulgação.
E apesar de ser algo que engorda, adoro pizza…
Depois de mais de uma semana consigo escrever novamente.
Não sei dizer o quê aconteceu mas estive muito sobrecarregado. Deixei de ir ao Simpósio Internacional de Interdisciplinaridade, recebi a Pizza Gravura do projeto Pizza S.P. S/A e ainda não dei retorno nenhum a seus integrantes, não fui na Bienal, não fui à reunião com Carla Fazenda e Manolo Perez sobre o projeto de exposição na rede Hilton e não fui escolher meu espaço na Labor III. Graças à Deus contei com a ajuda e compreensão dos amigos: Carla e Manolo já construíram todo o projeto, Vera Sanovicz reservou um espaço em grupo na Labor, a Bienal continua lá, a Ivani Fazenda me conta depois o quê aconteceu no Simpósio e os jovens artistas do projeto Pizza estão na famosa “semana do saco cheio”, portanto só vão lembrar do trabalho depois...
Vamos ver se hoje, pelo menos, escrevo um pouco mais.