Blog Ricardo Hage.com
Sábado, Março 05, 2005
 
Acabei de ler a coluna do Dagomir Marquezi na InfoExame desse mês. Suas opiniões parecem coroar algumas notícias que tive durante essa semana. Marquezi discorre sobre a matéria da Folha de São Paulo que investigou os bares próximos as grandes universidades de São Paulo e que descobriu que uma grande parte dos alunos está bebendo e jogando truco ao invés de estar estudando. Pois bem, conheço bem essa realidade e posso afirmar que não há, tanto no aluno quanto na sociedade, o mínimo desejo de um real aumento do esforço educativo. O preocupante é quando esse desejo deixa de existir nas próprias instituições de ensino!
Soube durante a reunião do GEPI - Grupo de Estudos e Pesquisa em Interdisciplinaridade da PUC/SP que vários colegas foram demitidos de suas uiversidades na virada de 2004 para 2005. Seu pecado: serem doutores ou estarem fazendo doutorado. Pois é, o que entendi é que essas instituições, fundamentadas em um leitura heterodoxa da LDB (lei de diretrizes e bases da Educação)resolveram que não é necessário contar com 70% de mestres e doutores em seus quadros de professores. Segundo essa leitura "diferenciada" da lei esse número seria necessário apenas para a aprovação dos cursos. Durante o intervalo de reavaliação desses cursos (3 a 5 anos) seriam necessários apenas 30% de mestres e nenhum doutor para a manutenção dos cursos. Moral da história: pague mão de obra cara apenas no período de avaliação e mantenha os cursos com amadores. Soube que apenas uma única universidade privada de São Paulo demitiu 1200 doutores de uma tacada só. Parece que essas demissões aconteceram pelo país inteiro: soube que a mesma coisa aconteceu no Paraná. Uma amiga minha disse que ela e sua equipe (todos doutorandos) foram demitidos de uma Universidade do interior em meio a grandes agradecimentos pelos serviços prestados e a promessa de recontratação no próximo período de avaliação, cerca de dois anos.
Pois bem, em um país onde os alunos querem mais é encher a cara e jogar truco (que aliás nem sei direito o que é, nunca acompanhei meus colegas nas partidas do "Chopp Escuro" na saída da USP)é óbvio que não tem sentido pagar mais pela mão de obra de mestres e doutores (e não pelo conhecimento, veja bem!).
Bem, e de quem é a culpa disso?
Em primeiro lugar a culpa é, na maior parte, dos próprios mestre e doutores! Pois é, o pessoal acadêmico tem uma dificuldade enorme de entender que é necessário que a sociedade seja informada da importância do ensino e da pesquisa. Em segundo lugar, a culpa é novamente de mestres e doutores que enfiam o rabo entre as pernas e aceitam todo o tipo de situação indignificante nas instituições em que atuam. Uma dessas situações é a da inversão da importância do conhecimento nas administrações e coordenações universitárias, tanto públicas quanto privadas. Os funcionários de todas as áreas, por exemplo, acostumaram-se de alguns anos para cá a tratar os professores como "seus" funcionários subalternos, fazendo com que estes se submetam a regras burocraticas das mais confusas e que muitas vezes transferem as atribuições das secretárias aos professores. Professores que perdem a paciência e que se exaltam ao exigir um pouco mais de respeito são normalmente tratados como pessoas desequilibradas e tem, a partir daí, suas demandas tratadas de maneira mais impeditiva. Esse processo é assutador: funcionários que deveriam estar criando condições para que professores trabalhem satisfatóriamente estão entendendo que as demandas pedagógicas desses professores só atrapalham seu próprio trabalho e suas rotinas burocráticas. Outra situação indiginificante é a relação que se configura entre professores pós-graduados (no strictu sensu) e outros que não continuaram seus estudos. Uma colega, mestra em educação, disse que é vista como um entrave, um incômodo, na universidade em que trabalha pois é a lembrança viva de que existe mais um grau no mínimo a ser galgado por qualquer um para que este seja considerado um professor universitário. Entendo muito bem o que ela sente: quando propusemos o projeto do Mestrado em Produção, Teoria e Crítica em Artes Visuais na FASM fizemos com que muitos professores, alguns em cargos de coordenação, que não tinham uma pós-graduação fossem incentivados a continuar seus estudos. Éramos como um a pedra no sapato desses professores pois estávamos oferecendo esses estudos na nossa própria instituição, uma facilidade enorme. No entanto eles não estavam nem um pouco interessados em mudar sua rotina. Da mesma forma que os estudantes da matéria da folha apenas querem jogar truco e beber cerveja esses professores não querem estudar. Que a categoria me desculpe mas professor que não gosta de estudar deveria procurar outra profissão!
Bem, pelo menos já está começando a existir uma reação a essa situação.
Reclamações já começaram a pipocar no MEC e nos sindicatos de profesores. A CAPES, segundo alguns colegas, barrou qualquer tentativa de diminuição da qualificação dos professores de mestrado e doutorado.
Eu ainda tenho esperança de que essa situação melhore mas já pensei várias vezes em abandonar o ensino...
Vamos ver.
 
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