Hoje Ana Maria, minha secretária, chegou contando a história de um bebê de um mês que morreu porquê o médico, após uma olhada superficial, disse que ele tinha um leve resfriado: na realidade ele tinha pneumonia dupla e morreu no dia seguinte. Em primeira instancia a culpa é do médico que não deu atenção nenhuma ao caso mas, no geral podemos dizer que a culpa é da incrível brutalização a qual a sociedade brasileira chegou.
Chamo de brutalização esse movimento que nos leva a ficar insensíveis aos fenômenos, aqueles eventos irreproduzíveis que observamos apenas quando estamos dispostos ou disponíveis para tal. O pôr do sol, por exemplo, pode ser entendido como fato e fenômeno. Como fato ele se apresenta de forma regular, pode ser mensurado, previsto e observado: o sol se movimenta de maneira calculável. Já como fenômeno o pôr do sol se apresenta de maneira individual: enquanto ele pode estar me emocionando e sugerindo alguma transcendência ligada a idéia de beleza pode também não estar significando nada a um outro observado colocado a meu lado. O fenômeno depende do observador, de um sujeito sensível, para que possa existir. O fato independe dessa existência.
Bem, acredito que essa brutalização social esteja destruindo a nossa capacidade de observar fenômenos.
É, a situação é séria. Se aquele médico fosse capaz de ser sensibilizado talvez se emocionasse com o medo que a mãe de primeira viagem estava tendo ou da dor que a criança estivesse sentindo. Essa emoção levaria a que ele tivesse uma outra atitude em relação a doença e talvez permitisse que a criança estivesse viva até agora. Ele seria obrigado através do fenômeno a agir de forma profunda sobre o fato, ou seja, sensibilizado pelo drama ele investigaria a pneumonia.
A questão da brutalização social me interessa não só do ponto de vista Interdisciplinar mas também do ponto de vista artístico. Pois é, e essa brutalização atinge também as artes…
A arte contemporânea, como reflexo da sociedade, também tem se brutalizado. Fundamentada na idéia de que arte conceitual e arte são a mesma coisa o fenômeno na arte tem sofrido dois tipos de ataque: ou é colocado de fora da produção artística contemporânea ou é racionalizado a tal ponto que se torna fato. Como formador de artistas plásticos fico muito preocupado com os desdobramentos desse processo na atuação do artista junto a sociedade. As artes, generalizando, tem os mecanismos necessários para a desbrutalização da sociedade. O próprio processo artístico só ocorre dentro de um movimento fenomenologicamente situado. No entanto muitos artistas, que como integrantes da sociedade também estão brutalizados, retiram do conceito apenas o que de factual pode ser explorado e esquecem que em sua essência a idéia de conceito abarca tanto a objetividade quanto a subjetividade. E quando isso acontece aquela obra de arte, brutalizada em sua essência, poderá ser a coisa mais cheia de significados e elucubrações teóricas no mundo e mesmo assim não terá sentido nem será verdadeira para o artista.
E antes que alguém comece a me criticar dizendo que eu estou buscando uma revalorização da arte acadêmica, e coisas do gênero, eu digo que é melhor que essas pessoas estudem um pouco mais coisas importantes como a epistemologia e a filosofia da arte. Lá percebe-se o seguinte: ciência e arte tem origens em naturezas distintas a procura de um mesmo objetivo, o entendimento do mundo. Uma surge da lógica objetiva, formal e direta; e a outra da lógica subjetiva, inconsciente e sensível. O fenômeno na arte é uma questão de fundamento sem o qual ela, no máximo, vira ciência de terceira categoria.