Ao longo desse ano em que os pensadores se silenciam tenho notado um recrudescimento do maior vício intelectual existente: o respeito a normas. Sim, tenho presenciado um crescente movimento em relação a uma busca de parâmetros rígidos na entrega de trabalhos científicos, publicações e apresentação de pesquisas em congressos. O vício tem sido de tal monta que não se discute mais a pertinência das idéias mas apenas se estas estão utilizando o jargão “correto”, se a bibliografia é realmente bibliografia ou se é referencia e quais as diferenças entre artigo e ensaio. Recentemente tive um de meus textos totalmente modificado por um revisor que insistia em trocar minhas palavras na busca de um estilo menos pessoal. O texto, que era escrito na primeira pessoa do singular, tornara-se impessoal ao ser reescrito na primeira pessoal do plural. O revisor chegou ao requinte de trocar a palavra talvez (que costumo utilizar muito) pelo termo quiçá! Eu havia me transformado em Machado de Assis. Como indício do que este movimento de recrudescimento das normas tem ligação com um certo emburrecimento da intelligentsia nacional posso dizer que todas as experiências negativas que tive com esse tipo de comportamento estavam ligados a publicações, instituições e pessoas de nenhuma expressão no campo acadêmico ou que, na realidade, tentavam esconder uma absoluta falta de confiança em seus dotes intelectuais. Na realidade, é isso que mais me irrita…
Esse é um momento histórico muito sério e tenho mantido certo tipo de reflexão politica e sociológica afastada deste blog: projetei este espaço como um lugar de discussão sobre a arte e a interdisciplinaridade. No entanto acho que agora não posso mais me furtar a pelo menos usar esse meio de comunicação para denunciar esse movimento de rigidificação do pensamento nacional.
Vamos aos fatos então…
Normas de escrita científica são apenas suportes auxiliares na construção de um texto. São muito úteis a pessoas que não tem o hábito de escrever o que por si só desvela um paradoxo: o intelectual escreve! O hábito da escrita, como qualquer outro exercício, cria as possibilidades da construção de uma identidade estilística, de uma forma de expressão própria de um determinado autor. Alem disso não podemos esquecer que, mesmo a luz da necessidade de rigor nos textos de registro e divulgação da pesquisa, a língua é um instrumento vivo e que se modifica autopoéticamente. O uso das normas de escrita científica como tenho visto vem na contramão desse processo. Outra constatação interessante é a de que grandes autores não seguem normas! Sim, procurem o uso das normas em Paulo Freire (cito apenas como exemplo, não me considero Freireano), Ariano Suassuna e C.P.Snow (só para usar um exemplo estrangeiro). É fácil notar como eles não estão interessados na forma como comunicam mas sim em como comunicam. Ao mesmo tempo podemos perceber que as normas são o cerne dos textos de mestrado e doutorado que permanecem sem publicação empoeirando nas prateleiras das bibliotecas universitárias.
Atualmente faço a minha parte nessa discussão dentro das minha disciplinas no Mestrado em Produção, Teoria e Critica em Artes Visuais na Faculdade Santa Marcelina. Sou o professor da disciplina de Metodologia de Pesquisa! Na realidade minha atuação é limitada pela própria resistência dos alunos, para quem é mais fácil usar normas do que pensar, e dos professores, para quem é importante o que os outros professores vão achar.
Se existe uma missão em nossas vidas a minha é tentar resgatar um pouco da autenticidade na produção do conhecimento.