Blog Ricardo Hage.com
Domingo, Outubro 09, 2005
 
Uma certa vez disse a Manolo Vilches que na minha lápide gostaria que fosse inscrita a seguinte frase""teria feito mais se não fosse tão depressivo". Ele argumentou que na realidade a frase deveria ser "Fez até demais para quem tinha depressão". O que ele estava querendo dizer é que, pelo volume de coisas que faço, não poderia ter depressão. Na realidade não sei se tenho depressão e nunca fui clinicamente diagnosticado. O que sei é que na atual realidade brasileira não sentir-se deprimido talvez seja, isso sim, um sintoma psiquiátrico. Vivemos no que chamo de "sistema do não". A justificativa quase positivista de que tudo na vida brasileira deve ser regulamentado acaba por atribuir pequenos poderes a pessoas que determinam espaços, lugares e situações. Daí para que esses regulamentos sociais sejam usados para o impedimento das iniciativas pessoais é um passo. E o pior é que, no Brasil, tanto o pensamento de esquerda quanto o de direita promovem essa situação. Os ditos discursos progressistas são tão promotores de um "status quo" quanto os discursos conservadores. No caso das artes, área normalmente associada aos discursos progressistas, vemos essa situação o tempo todo. É muito interessante a reclamação dos alunos de artes em relação a participação de seus professores em concursos e salões. É muito comum também ver a premiação de artistas consagrados ou de colegas dos integrantes das comissões de seleção nessas premiações. Bem, me parece que essa prática tem começado a incomodar demais. Os artistas, principalmente os mais jovens ou iniciantes, tem se questionado muito sobre a utilidade de participar do circuito já estabelecido. Algumas iniciativas como as exposições Labor, montadas exatamente por gente jovem de fora do circuito, bem como o SiteEspecífico.org, começam a colocar em xeque esse estado de coisas. Eu mesmo tenho estudado o assunto em meu projeto Maria de Castro, uma persoangem artista que funciona como ferramenta de pesquisa na investigação do conceito de "ArtWorld". De qualquer maneira como todo bom "deprimido" ainda não vejo uma luz no fim do túnel. E olha que eu até me considero otimista...
 
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