Acabei de postar algumas fotos no meu outro blog,
O Ovo Belga, e resolvi que aqui era o melhor lugar para falar um pouco das questões visuais que o uso da câmera do Treo 600 tem me obrigado a enfrentar. Para quem não sabe
O Ovo Belga é uma espécie de Moblog, ou blog móvel. Pensei em construí-lo quando, como uma bomba em minha cabeça, descobri que deveria estar “ocupando” o
Paço das Artes em São Paulo ao mesmo tempo que deveria estar no Simpósio de Interdisciplinaridade do SIEDUCA no Rio Grande do Sul. E a “Ocupação” era exatamente o que o nome significa, artistas ocupando e trabalhando um espaço público. Bem, já uso um Treo 600 há algum tempo. Ele é um Palm integrado a um celular GSM e a uma câmera digital. Percebi que com ele poderia construir um blog móvel onde postaria mensagens fosse lá de onde estivesse, desde que houvesse uma conexão GSM. Bem, continuo alimentando
O Ovo Belga quase diariamente e algumas pessoas tem notado que as fotos que coloco lá obtidas com o Treo 600 tem uma característica expressiva diferenciada, não são simplesmente fotos. Isso acontece pelo uso do defeito como efeito de uma maneira próxima a Rosângela Rennó. Um dos pontos fracos do Treo é sua câmera digital. De padrão VGA deixa muito a desejar em relação a webcams e mesmo a câmeras integradas em celulares. O programa interno que gerencia a câmera digital também não é muito bom e para substituí-lo alguns usuários criaram e disponibilizaram um outro na internet, o Picken. Esse software pode, pelo menos, diminuir algumas irritantes questões na câmera do Treo como a existência de pontos azuis em fotos tiradas em ambientes de baixa luminosidade. Utilizo esse software para obter e gerenciar as imagens que obtenho no Treo. Como, mesmo assim, as imagens não tem uma qualidade fotográfica razoável, resolvi desde o começo que meu exercício com essa câmera seria o exercício do olhar e o exercício da comunicação instantânea. E foi assim que, dia após dia, procurei sempre situações onde uma imagem fotográfica não fosse vista apenas como registro mas sim como expressão. Acho que ainda falta muito trabalho e tenho postado imagens sem grandes compromissos com o critério de qualidade visual mas, como é bom sempre lembrar,
O Ovo Belga é antes de tudo parte do
SiteEspecífico.org e tem uma intenção de informalidade e brincadeira.
Daniela Bousso enviou um e-mail onde propõe uma discussão mais profunda das questões levantadas a partir da idéia de uma “Ocupação” do
Paço das Artes. Pois bem, como a última reunião do meu Núcleo de Pesquisa em Arte e Tecnologia na
Santa Marcelina foi voltada a esse assunto gostaria de fazer algumas colocações. Em primeiro lugar a idéia de criar uma ocupação virtual sediada no foi pioneira. Não vou aqui ficar dizendo que fomos o primeiro grupo a pensar nesse tipo de intervenção mas, pelo menos, fomos os primeiros nessa mostra pois estávamos locados na primeira leva de ocupações. Essa experiência está contando com uma audiência de cerca de 50 pessoas por dia. É verdade que o
SiteEspecífico ainda não mostrou bem para o que veio mas eu estou encarando essa experiência como um work in progress , bem no espirito da ocupação.
Nessa nova leva de ocupações notei um crescente aumento da presença de artistas sediados na internet, o que é bom. Como Daniela coloca bem, a cobertura jornalística do evento foi bem tímida e talvez descomprometida. Não foi dada importância as questões propostas pela idéia de uma ocupação de um espaço cultural público. Essa presença crescente dos trabalhos dos artistas da ocupação na rede pode ajudar a superar esse quase bloqueio criado na mídia convencional, criando um fluxo maior de espectadores multiplicadores da discussão. Cria também maior pressão sobre os meios convencionais dado que aumenta a presença de palavras chaves sobre o evento nos mecanismos de busca: não podemos esquecer que o google é, por exemplo, uma ferramenta altamente utilizada pelos jornalistas.
Agora, pensando bem quanto a essa falta de veiculação da discussão sobre a atual condição cultural no Brasil, não era de se esperar outra coisa. Faço parte de um programa de mestrado que pretende discutir a critica, a veiculação e produção da legitimação do trabalho artístico no Brasil. Lá no Mestrado em Produção, Teoria e Critica em Artes Visuais da
FASM cheguei a criar um projeto de pesquisa chamado
Maria de Castro. Essa artista inexistente, que caracterizei como sendo um character specific é uma das artistas ocupantes virtuais do Paço. Esse projeto já identificou algumas questões muito interessantes mas que o artword se recusa a discutir. Uma delas tem a ver com a motivação que leva jornalistas a se dedicarem a área de artes e cultura. Uma boa parte dos poucos profissionais que se aventuram no campo é formada por leigos que, após um ou outro curso introdutório de história da arte e/ou contato com alguns artistas, sente-se seguro o suficiente para se iniciar na veiculação/legitimação do artista e da obra de arte. Neste processo sentem-se em um movimento de humanização e glamourização. É o caso de profissionais que passam da cobertura jornalística da área de cidades ou esportes para a área de artes. Nesse processo em que jornalistas “leigos” à área de artes procuram pontos de sustentação de seu trabalho muitos artistas, curadores e mesmo galeristas em busca de veiculação acabam transferindo um poder de legitimação profissional que é fundamentado apenas no interesse e na busca de influência e não no conhecimento real do processo artístico. Essa relação cria muitas vezes um jornalista que veicula a arte contemporânea sem entende-la completamente. Nestes casos existe sempre um sub-discurso, voltado normalmente para uma arte funcionalista ou decorativa, quando não acadêmica. Outro aspecto característico da forma como alguns jornalistas e críticos enxergam o trabalho do artista é a maneira muitas vezes idealizada com que eles entendem o processo de produção do artista. Nesses casos é comum que essas pessoas produzam um discurso ora idealizador, ora desqualificador, dependendo das condições cognitivas subjetivas de cada sujeito. Não é incomum que um artista sólido mas com aparência comum seja depreciado em relação a um artista ainda precário mas portador de uma imagem arrojada. Uma leitura categorizada e objetiva do artworld transformaria a forma como o jornalismo nacional trata a produção cultural mas para isso seria necessário que o artista questionasse a maneira como a imprensa e a critica estão avaliando a sua produção. Precisamos começar a mudar esse processo já.