Acabei de ler uma daquelas matérias curtas envolvidas de imagens que a Folha de São Paulo publica sobre arte na Ilustrada. É uma pequena entrevista com Lisette Lagnado, curadora da Bienal de São Paulo, falando sobre a relação entre arte e moda. Sintetizando, na entrevista ela fala dos artistas que vão apresentar trabalhos na Bienal e que tangenciam a moda, fala que a moda pode ser arte mas a arte não pode ser moda e que a moda instrumentaliza artistas para seus fins, esvaziando seus conceitos. Ah, também diz que se fosse convidar algum estilista para a Bienal convidaria Alexandre Herchcovitch.
Bem, vamos lá, por que será que essa entrevista me chamou tanto a atenção?
Durante uns dez anos lecionei Metodologia de Pesquisa para o curso de Moda da Santa Marcelina. Foi só depois que "migrei" para o departamento de Artes Plásticas. Não fui professor de Herchcovitch (Alê para os íntimos) pois minha disciplina, inicialmente, era dada no segundo ano. Quando a turma do Herchcovitch entrou nesse perído minha disciplina passou para o primeiro ano. No final das contas não dei aula para essa turma.
O que estou querendo dizer é que tenho passado por essa discussão sobre moda e arte durante muito tempo e, se não cheguei a algumas conclusões, pelo menos tenho algumas reflexões a colocar.
Em primeiro lugar, me parece que há mais vida na moda. Vida, que papo é esse???
Estou falando de energia, do interesse que as pessoas tem pela moda, do motor que movimenta esse campo, e que na realidade está ligado, no fundo, às idéias de sexo e beleza (no sentido Kantiano).
Ja nas Artes Visuais podemos considerar que o conceito (principalmente visual) parece ser um movimento de mimetização do rigor de pesquisa científico, então muitas vezes esse rigor se transforma naquilo que Fazenda e Japiassú chamam de rigor triste. Não é incomum na atualidade que propostas conceituais bastante complexas e rigorosas sejam metaforizadas de maneiras ricas e formalmente potentes, mas é preciso que o artista seja realmente um "artista" vivo (no sentido da moda).
Se não, a obra de arte se torna "meio morta"...
As artes visuais acabam tendo um apelo tão grande ao público quanto um congresso de filosofia. As grandes exposições acabam atraindo um grande público apenas quando são estabelecidas como entretenimento ou como formadoras de um adorno (no sentido da moda) de uma erudição.
Sim, a Erudição artística pode ter tanta função decorativa quanto um anel de brilhantes.
E o dinheiro acaba sendo resultado da importância dada pelas sociedades a essa relação com a vida. É só isso.
Se o campo da Moda é mais "vivo" e nele que se vive "melhor"!
Eu acredito que a Moda possa ser pensada, criada e mesmo comercializada como Arte mas para isso é preciso que o criador (ou artista) tenha esse interesse (da mesma meneira como um artista coloca uma cadeira no meio de uma sala e diz "isso é uma instalação").
Acredito também que a Arte possa ser pensada como Moda (isso se ela já não for) focando interesses no mercado, na aceitação do trabalho pelo público e por sua permanencia na história.
Será que não é isso mesmo que acontece?
Bem, não vou colocar mais o dedo na ferida que acho isso nojento, hehehe.
Essa não posso esquecer: a data ainda não está certa mas vou dar um curso de extensão na FASM de cerca de 10 hs de duração em Outubro ou Novembro intitulado provisóriamente de "Ficção Científica e as Poéticas do Futuro".
Pois é, eu na realidade nunca dou muita bola para essa vertente das minhas pesquisa mas quando fui falar de meus interesses de pesquisa na disciplina de Mirtes Marins para o Mestrado em Artes Visuais na Santa Marcelina, ela lembrou que sempre ficou interessada quando eu falo no assunto mas que eu acabo não aprofundando a discussão. Acabou perguntando se eu não poderia fazer um curso de curta duração sobre Ficção Científica, nos moldes do curso que Leon Kossovitch apresentou no semestre passado e que Christiane Mello anda projetando para este ano.
Já construí um planejamento inicial e preciso conversar com a Mirtes sobre a data. A Chris Mello também acha que nós podemos tentar encadear as datas e horários dos dois cursos para potencializar a audiência.
É uma boa idéia e eu estou feito um louco resgatando material não publicado e a publicar sobre o assunto. É que tenho um texto sobre Ficção Científica em um livro da UFRJ sobre a ciência no cinema que está no prelo e algum material no Teletransport.org.
Quando tudo estiver mais certo publico as informações por aqui.
E a Roberta Albuquerque, minha orientanda de mestrado na FASM, acabou mostrando novamente para mim a importância da produção e reflexão visual em cadernos de artista. Surgeri a ela que produzisse cadernos de artista na busca por um desvelamento da sua poética pessoal e ela se apaixonou pela proposta.
Pois é, isso sempre acontece e eu tenho uma ligação histórica com esse tipo de "artifício" artístico. Produzo "cadernos de artista" na realidade desde os tempos da FAUUSP.
Durante o doutorado descobri na lógica da produção dos meus cadernos a origem da minha atuação pedagógica em artes visuais.
Na dissertação de mestrado da Iraci Saviani, defendida na semana passada e orientado por mim, olhar para um suporte "caderno"(no caso dela, agendas) foi fundamental para a produção de um trabalho artístico.
Preciso pensar um pouco mais sobre a tradição do registro de reflexões artísticas em cadernos, seu sentido na contemporaneidade e a possibilidade de superação do suporte físico a partir das novas tecnologias.
Já andei fazendo alguns estudos, talvez desde 1997 ou 98, com a substituição do caderno por um notebook munido do sotware Painter ou de um handheld Palm.
Mais recentemente tenho utilizado um Treo 600 e um 650, mas ainda não cheguei a uma solução que substitua o prazer, a praticidade e significância que um caderno permite ao artista.
Só Deus sabe onde vou chegar...
A notícia de que a exposição do TGI de Artes Plásticas da Santa Marcelina vai ser no Centro Cultural São Paulo já deve ter se espalhado. A exposição vai apresentar também os trabalhos dos formandos da ECA/USP e da Belas Artes (FEBASP). Achei interessante a reação dos alunos. Na realidade a turma de formandos deste ano anda muito preocupada com a carreira e o sucesso profissional, sem contar esse "bicho" chamado de mercado de arte. Agora o compromisso de muitos deles, senão de todos, é fazer o melhor trabalho possível. Vamos ver se esse compromisso não emperra a produção artística, coisa muito comum de ocorrer. Os meus orientandos (de bacharelado, é bom esclarecer) até que estão em um bom caminho. Ah, e as bancas de defesa também vão acontecer por lá no final de Novembro, no CCSP.