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Artes Visuais, Interdisciplinaridade e Ensino

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Segunda-feira, Maio 14, 2007

 
Dois meses sem postar nada...então, fuçando minhas coisas para a apresentação de minha trajetória de pesquisa aos alunos do Mestrado em Artes Visuais FASM achei três artigos perdidos no meu primeiro blog. Foram escritos em 2002 mas ainda estão atuais, então, lá vai:

Publicado originalmente em 06/07/2002 13:38
Por uma Interdisciplinaridade Rigorosa
Ricardo Hage de Matos

O dia de hoje parece ser um dia onde eu estou me deparando o tempo todo com a questão do rigor!
Pela manhã conversei com minha secretária, Ana Maria, sobre os problemas que ela pode ter criado na cabeça dos filhos ao tentar lhes contar uma história que eu tinha contado a ela, a história do esporte. Falávamos outro dia sobre a Copa do Mundo e eu contei a ela sobre a transformação que ocorreu ao longo de milênios entre a guerra e os jogos de guerra, processo esse que resultou na criação do esporte moderno. Fazendo uma síntese, fui do Circo Romano à Copa do Mundo. Ana Maria é extremamente inteligente mas tem algumas deficiências de conhecimento quanto a história da civilização: ela não conseguia ver muito bem a diferença entre os Gregos e a Europa da Idade Média. Esse é o cerne do meu problema de hoje: ao tentar contar essa “pequena” história do esporte aos seus filhos ela sofreu uma enxurrada de questões sobre o pano de fundo desse processo. Eles queriam saber quem eram os povos, países e governos envolvidos no processo. A lacuna que ela deixou na informação dada a seus filhos tem a ver com a situação, o locus, dos sujeitos que fizeram parte dessa história. Faltou rigor nessa sua “aula”. Para que a informação fosse rigorosa Ana Maria deveria ter o controle de todos os elementos que nos possibilitariam entender o processo de criação do esporte moderno!
Estou sendo chato?
Que dever tem a coitada da Ana Maria em conhecer a história da civilização ocidental?
Na realidade quando aprendemos alguma coisa devemos entender que esse aprendizado tem que ser relativamente rigoroso. Qual é a vantagem em aprender a escrever um pouco, aprender a calcular um pouco (detesto matemática) ou aprender a pintar um pouco? Nenhuma, apenas gastamos tempo e dinheiro já que não há sentido em aprender um determinado conhecimento pela metade!
Devemos também entender que quando nós professores não temos todas as informações sobre um determinado conteúdo (curricular) precisamos pesquisar sobre esse conteúdo ou, minimamente, informar o aluno que algumas peças do quebra cabeças estão faltando. Ele tem esse direito.
Fiquei mais estarrecido com a falta de rigor que assola o mundo ao assistir por acaso um programa de televisão sobre a Bíblia. Estava fazendo a digestão após o almoço e passeando pelos infinitos canais da TV a cabo quando me deparo com a história de Roma vista de um ponto de vista profético. Nem mesmo um hermenêuta da Biblioteca de Alexandria poderia fazer uma tal leitura distorcida de fatos históricos muito bem registrados por sinal. Fiquei pasmo! Pelo olhar de uma pessoa menos informada, com pouca informação histórico/cultural, o apresentador poderia parecer alguém detentor de uma verdade justa e certa. Quantas preconcepções não foram criadas ao longo da história pela simples manipulação de um conhecimento dito científico!
O rigor na Interdisciplinaridade nada mais é do que um compromisso tácito entre professor, pesquisador, aluno e o conhecimento.
Esse é um compromisso de respeito mútuo!
Ser rigoroso na Interdisciplinaridade não significa buscar loucamente todo e qualquer material bibliográfico apenas para ter um “texto” cheio de notas de rodapé. Na realidade essa busca enlouquecida deve ser por autores que conversem conosco dentro de nosso “texto” e que nos possam ouvir (metaforicamente) da mesma forma como os devemos compreender para que possamos nos tornar professores rigorosos.
Devemos perceber a impossibilidade que o ser humano tem de conhecer o todo mas também reconhecer a necessidade da busca infinita por essa coisa tão necessária que é um saber rigoroso.


Publicado originalmente em 05/07/2002 00:06
Interdisciplinaridade e Transdisciplinaridade: resolvendo o problema!
Ricardo Hage de Matos

Estamos acostumados a entender que tudo no mundo é hierarquizado. Há sempre algo ou alguém que é superior a toda uma ordem de grandezas. O racionalismo introjetado em nossa cultura pelo positivismo é em grande parte o culpado por essa nossa necessidade de hierarquização. É dentro dessa perspectiva que podemos entender a preocupação crescente que existe entre os pesquisadores em educação sobre as questões da Inter e da Transdisciplinaridade. As perguntas que se fazem são as seguintes: a Transdisciplinaridade é superior a interdisciplinaridade? E essas duas categorias são superiores a multidisciplinaridade?
No âmbito da epistemologia essas perguntas não tem sentido. Podemos dizer que, na atualidade, a Interdisciplinaridade e a Transdisciplinaridade são áreas que estudam um mesmo movimento no conhecimento a partir de pontos diferentes. A interdisciplinaridade é uma discussão que surgiu na área de educação a partir da revolução estudantil de 1968. Uma série de revoltas e greves estudantis gera uma demanda para a mudança nos sistemas educacionais, demanda essa que não podia ser resolvida pelas teorias existentes, ou pelo menos essa era a percepção revolucionária vigente na época. A França foi o primeiro país a testar a possibilidade de um novo paradigma na educação e a partir de 1970 inicia-se um primeiro núcleo de estudos interdisciplinares na Universidade de Grenoble. É a partir daí que durante 30 anos pesquisadores da área de educação no mundo todo perseguem a ideia de se construir uma teoria da Interdisciplinaridade. Na atualidade os três grandes pólos de pesquisa nessa área são a França, os Estados Unidos e o Brasil.
Já a Transdisciplinaridade é um questionamento que surge a partir da física quântica e está voltada para a pesquisa dos novos paradigmas do conhecimento na área das ciências exatas. A Transdisciplinaridade inicia-se como uma ideia difusa entre vários cientistas que pesquisavam as partículas subatômicas durante os idos de 1950 e que começaram a perceber como seus desejos e vontades interferiam em seus experimentos científicos. Muitas vezes foram observados fenômenos nestas experiências que não eram reproduzíveis nem previsíveis e que só podiam ser explicados devido a presença ou não de certas pessoas nos recintos dos laboratórios no momento da experimentação. Isso era simplesmente absurdo dentro dos cânones da ciência positivista e a partir daí inicia-se as discussões sobre a busca de um novo paradigma de conhecimento científico que pudesse englobar todas as dimensões do conhecimento humano. Era o desejo da superação da disciplinaridade a partir da constatação de que ela não dava mais conta de responder a todas as necessidades do cientistas.
Resumindo a questão: a Interdisciplinaridade e a Transdisciplinaridade só não são a mesma coisa porquê partem de pontos diferentes (educação e ciência) para resolver questões diferentes (método de ensino e método de pesquisa científica). No mais utilizam-se do mesmo arcabouço filosófico e no fundo falam a mesma língua.
Professores e educadores de um lado, cientistas do outro, esses grupos aprofundaram a discussão de questões que estavam adormecidas a séculos! Sim, a maior parte das questões na Inter e na Transdisciplinaridade já eram conhecidas até mesmo pelos gregos, no entanto essas questões foram enterradas quando a fragmentação do conhecimento feita pelo racionalismo tornou-se hegemônica na produção do conhecimento humano.
Essas questões fundamentais são aquelas que discutem qual é o sentido que tem o Homem dentro do conhecimento e de como esse ser humano pode produzir um saber humanizado.
A Interdisciplinaridade e a Transdisciplinaridade buscam apenas recolocar o conhecimento na mão daquele que a produz, o próprio ser humano.


Publicado originalmente em 04/07/2002 13:51
A Interdisciplinaridade é um estado de espírito
Ricardo Hage de Matos

Ao longo de muitos anos várias pessoas tem me perguntado o que é interdisciplinaridade ou como podemos chegar a ela. Essas sempre foram perguntas difíceis. A questão da Interdisciplinaridade no ensino é maior do que simplesmente pensarmos em aplicar um receituário de ações e tarefas que poderão caracterizar o nosso trabalho como interdisciplinar.
Posso dizer que a interdisciplinaridade é nada mais nada menos do que o reflexo do povo que a está tentando produzir em um determinado momento.
Como assim?
Vivemos em um mundo que está saindo da fragmentação do conhecimento causada por todo o racionalismo para algo ainda nebuloso e difuso chamado pós-modernidade. Ninguém sabe ao certo o que é isto. Da mesma forma como tem acontecido há alguns séculos a humanidade passa por aquele sintoma de “fin de siecle”: não sabe para onde vai e acaba se agarrando à tradição. A partir daí podemos entender porquê estamos vivendo alguns movimentos muito “reacionários” em relação à pesquisa e a educação. Um exemplo disto é a forma como as teses e dissertações estão sendo apresentadas nas instituições de ensino e pesquisa. No início dos anos 90, quando terminei meu mestrado, pude entregar minha dissertação encadernada em espiral e com uma capa ilustrada. Usei o formato de papel carta para acomodar meu material. Hoje em dia eu não poderia entrega-la assim. As instituições estão exigindo um mesmo padrão de entrega monográfica, padrão este que está mais do que superado e que não exige do pesquisador nenhuma reflexão sobre a forma e a função na apresentação de seu relatório. Por exemplo, um pesquisador que necessite usar o formato paisagem na formatação de seu trabalho estará impossibilitado pela burocracia das instituições de ensino na maior parte das vezes. O estado de espírito das pessoas que constroem com seu poder esse imaginário padrão monográfico é o mesmo da humanidade na virada do século: agarrando-se ao passado com medo de deixar o futuro fluir para dentro de seus corações.
Esse é o estado de espírito de nosso povo hoje em dia. Apegamo-nos a tradições das quais nem sabemos as origens. Acreditamos piamente que velhas soluções são as soluções mais eficientes para o futuro. Acreditamos que velhas soluções são na realidade novas soluções. As soluções em educação alinhan-se na atualidade com o que há de mais conservador quanto as questões do controle e do currículo. Especialistas da área financeira são chamados para dar “palpites” sobre a forma como as coisas da educação devam ser geridas. Keynes daria boas gargalhadas ao ver escolas sendo tratadas como a economia americana da época da grande depressão!
É paradoxal que deixemos a situação da educação chegar a esse ponto já que fazemos parte de um povo que nunca respeitou o estabelecido, que sempre riu daquilo que estava formalizado e criou o novo a partir de tudo o que é mais sagrado na ciência e na arte. É apenas a partir desse jeito de ser do brasileiro que podemos entender a Interdisciplinaridade no Brasil.
O estado de espírito de alguém imbuído em uma ação interdisciplinar é, ao contrário da disciplinaridade, o de alguém que está produzindo o novo e o incerto. Um professor trabalhando na Interdisciplinaridade é alguém que está criando condições para a mudança que obrigatoriamente virá por aí, capitaneada ou não pelo homem. Uma pessoa Interdisciplinar é aquela que irá dar sentido a ciência, a arte e a tecnologia , coisas essas que hoje em dia parecem tão pouco humanizadas.
A Interdisciplinaridade é o estado de espírito daquele brasileiro para o qual a vida, com todas as suas dificuldades, tem muita graça e vale muito a pena.

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